
Em parceria com o Fórum de Reitores das Instituições Públicas de Ensino do Estado do Rio de Janeiro (FRIPERJ), o evento aprofunda discussões e propostas para o ecossistema de Ciência, Tecnologia e Inovação no estado. Foto: Rafael Pereira
A Finep e o Fórum de Reitores das Instituições Públicas de Ensino do Estado do Rio de Janeiro (FRIPERJ) realizaram, nesta terça-feira (7/4), o segundo dos três dias do I Seminário FRIPERJ-FINEP: Soberania, Projeto Nacional e Estado do Rio de Janeiro. O objetivo do evento é avaliar o ecossistema de Ciência, Tecnologia e Inovação no estado a partir de debates sobre o desenvolvimento fluminense no cenário nacional, particularmente em um ano de eleições estaduais, contribuir com a ampliação e sistematização da reflexão regional, bem como aprofundar discussões e propostas. O seminário conta com o apoio da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e do Clube de Engenharia.
No Dia Mundial da Saúde, o evento discutiu o Complexo Econômico-Industrial da Saúde(CEIS) no estado do Rio de Janeiro e sua articulação com a política econômica. Na abertura, o Professor Mauro Osório, economista da UFRJ e liderança da FRIPERJ compôs a mesa com a Reitora da UERJ, Gulnar Azevedo, Professor Carlos Gadelha, pesquisador e coordenador do Centro de Pesquisa da Fiocruz e ex-secretário de Ciência e Tecnologia e insumos estratégicos do Ministério da Saúde, o Superintendente do BNDES e mestre em economia e política da PUC/SP, João Pieroni, e o ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão. “Nossa ideia é tirar um documento daqui com propostas concretas para os candidatos ao governo do Estado do Rio de Janeiro”, afirmou Mauro Osório.
“O Hézio Cordeiro, já na década de 80, começou a falar do complexo médico industrial da saúde, percebendo a modificação da prática médica diante do interesse privado. É muito bom ver esse reconhecimento para aquele que foi um dos principais articuladores e criadores do Sistema Único de Saúde (SUS), lançando as bases para a reforma sanitária brasileira e contribuindo com a formação acadêmica da Saúde Coletiva no País”, lembrou a reitora da UERJ, Gulnar Azevedo.
O Professor Carlos Gadelha afirmou que inovação, ciência e tecnologia são compatíveis, convergentes e necessárias para um Sistema Universal da Saúde e buscou situar o tema e os desafios para o estado do Rio. “Estamos falando de uma visão que integra a vida, o bem-estar social, a sustentabilidade ambiental com o desenvolvimento econômico, e conversa sobre o tema desenvolvimento e soberania. Hoje não dá para falar sobre estratégias de políticas públicas que não considerem o risco à soberania que o mundo está passando. Temos que considerar as dimensões social, ambiental e econômica da ciência e tecnologia”, afirmou ele. “Se não temos uma capacidade produtiva em saúde, nós não tranformamos conhecimento em benefício para a sociedade brasileira. Temos que transformar IA em equidade e acesso digital para a população, transformar engenharia genética em produtos e vacinas para a sociedade brasileira”, completou.
João Pieroni falou das ações recentes do BNDES no apoio a Nova Indústria Brasil com quase R$ 300 bilhões de recursos no desenvolvimento de novos medicamentos, novas plantas produtivas pioneiras de bens e vacinas não produzidas no Brasil. “A crise institucional do Rio tem um peso muito grande na decisão de investimento das empresas. O BNDES vem investindo no novo INCA e na nova planta da Fiocruz em Santa Cruz”, afirmou.
O ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão, afirmou que soberania sanitária, inovação e desenvolvimento podem ser pensados juntos. Ele trouxe seis propostas: 1) Criar uma governança própria para a política do Complexo Econômico-Industrial da Saúde, uma espécie de pacto fluminense, para construção de uma carteira de projetos estratégicos, com coordenação permanente. 2) Trabalhar com missões concretas e objetivas. 3) Criar um arranjo financeiro próprio. 4) Usar o poder de compra do SUS como instrumento de inovação e reindustrialização. 5) Discutir a questão da integração regulatória, propriedade intelectual e incorporação tecnológica, com mecanismos que permitam atravessar o vale entre a pesquisa, patente e sua incorporação pelo SUS. 6) Pensar o Rio como política regional, com encadeamentos metropolitanos, uma estratégia de reordenação territorial do desenvolvimento. “Temos que entrar na engenharia da política pública, formulando propostas e construindo mecanismos que permitam a integração dos ativos de altíssima qualidade presentes no Rio de Janeiro”, concluiu.
Já Luiz Davidovich, físico e assessor da presidência da Finep, lembrou a importância de discutir propostas, em conjunto com a população, e ter um compromisso dos candidatos em um ano
eleitoral. “O que a ciência e tecnologia representa de efetivo na vida do cidadão? Como isso se relaciona com o dia a dia da população? Na área da saúde é mais fácil materializar a ciência e tecnologia na forma de vacinas e medicamentos. Precisamos focar nos grandes projetos, como o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, e na nossa biodiversidade, que deve ser a nossa meta, a nossa lua”, comparou.
O presidente da Finep, Luiz Antônio Elias, ressaltou a capacidade do estado do RJ de empreender toda sua capacidade na área de saúde. “Pontos importantes para que possamos ter uma política efetiva são as compras governamentais, encomendas tecnológicas e o foco nos problemas reais da sociedade. Que oportunidades teremos se não fizermos empreender políticas públicas que olhem essas dimensões? E mais, como fica o mundo do trabalho frente a todo esse processo disruptivo? A capacidade de incorporar essa mão de obra é cada vez mais reduzida. Estamos fazendo esse trabalho junto com o Sesc e o os Institutos de Economia da UFRJ e da Unicamp”, afirmou.
Mesas de Debates
Na parte da tarde, o coordenador da Rede Petro em Macaé, Glauco Nader, comentou que o Brasil exporta hoje mais de dois milhões de barris por dia, mas o Rio não tem fábrica para produzir os equipamentos necessários. “O RJ tem 87% da produção nacional, mas não fabrica os equipamentos necessários para essa indústria, que tem longo prazo de maturação de investimentos e é a maior pauta de exportação do país. Outro desafio é formar a mão de obra especializada. A indústria de óleo e gás vai ser preponderante nos próximos anos, e o ambiente empresarial e regulatório do estado do Rio ainda é hostil no recebimento dessa indústria, que gera muito tributo, muita receita e muito emprego qualificado”, disse.
Israel Sanchez Marcelino, do grupo de Estudos sobre Economia e Desenvolvimento da Baixada Fluminense da Universidade Federal Rural, falou sobre novos projetos e empreendimentos recentes na cadeia de óleo e gás. “Como podemos mobilizar essas cadeias regionais no momento de incertezas, equilibrando as novas pressões de demanda trazidas pela transição energética? A crise estrutural do estado do Rio é obstáculo relevante para explorar esses potenciais, mas as maiores possibilidades de mobilizar esse sistema produtivo em uma estratégia de desenvolvimento regional está no gás natural”, sinalizou.
O Professor Romildo, diretor do Parque Tecnológico da UFRJ, lembrou da necessidade de um projeto não só para a geração de empregos de qualidade, mas para a retenção de talentos no estado. “A gente não pode ter um estado com a produção do RJ, sem ter uma indústria correspondente. O Rio está totalmente desarticulado, mesmo tendo as maiores e mais bem credenciadas instituições de pesquisa e inovação da América Latina. Nós precisamos de um projeto para o estado, um movimento para ter uma cadeia produtiva sólida e que deixe os resultados aqui”, avaliou.
O representante da gerência de Gestão Integrada da Transição Energética da Petrobras, Carlos Marçal, disse que o óleo produzido no Brasil é um dos mais descarbonizados do mundo, sendo competitivo em custo e emissão. “O Brasil ainda tem um futuro brilhante na produção de óleo e gás, precisamos saber trabalhar esse futuro para que ele seja perene. O aumento sustentável da oferta nacional depende de investimentos e reduz a dependência de importações, mas temos projetos também para renováveis, biodiesel e etanol, por isso precisamos desenvolver a cadeia produtiva local para as renováveis”, concluiu.
O evento foi encerrado com a mesa sobre cultura e desenvolvimento regional, composta pelas professoras, Lia Calabre, pesquisadora de políticas culturais do programa de pós-graduação em cultura e territorialidades da UFF e Juliana Chrispim, doutora em artes cênicas pela UniRio e coordenadora de cultura do Colégio Pedro II. Juntas, elas falaram do papel fundamental da cultura para o desenvolvimento social e humano.
“A cultura ainda é tratada como algo supérfulo, menor. Precisamos ir além dessas métricas totalizantes que não dão conta, e criar novas tecnologias de dados que desviem esse olhar”, afirmou a professora Lia. “Ampliar esse entendimento da cultura, que ainda é muito restrita nas linguagens e dimensões artísticas. A cultura envolve a gestão de equipamentos cuturais, preservação de acervos, a articulação com criação de cursos e com outros eixos. Tem um papel tão importante quanto o desenvolvimento de novas vacinas ou novas tecnologias”, completou Juliana.
O I Seminário FRIPERJ-FINEP: Soberania, Projeto Nacional e Estado do Rio de Janeiro continua no dia 12 de abril. Ao final, o seminário produzirá um relatório com as principais sugestões e recomendações estruturantes para impulsionar a cadeia produtiva, revitalizar o setor industrial, com base em sustentabilidade e integração produtiva, e aumentar a complexidade econômica do estado.






