Brasil Inovador
Manual de Oslo - Diretrizes para Coleta e Interpretação de Dados Sobre Inovação
   
   
 

3. Métodos de pesquisas

3.1 Pesquisa obrigatória ou voluntária

431. As pesquisas sobre inovação podem ser obrigatórias ou voluntárias. Caso elas sejam voluntárias, espera-se uma taxa maior de não resposta. Baixas taxas de resposta significam uma amostra menor do que a esperada e, portanto, maior variância. Isso pode ser compensado em alguma medida, no caso das pesquisas amostrais, por frações de amostra maiores. Entretanto, aumentar as frações de amostra não resolve o problema básico nas estimativas para a população alvo, que decorre de uma alta taxa de não resposta e torna as análises posteriores menos representativas.

3.2 Censo ou Pesquisa por amostragem

432. Os dados sobre inovação podem ser coletados por meio de censos ou de pesquisas por amostragem. As limitações de recursos e o custo das respostas em muitos casos descartam uma pesquisa de toda a população (censo). Se são utilizados as pesquisas por amostragem, as unidades devem ser selecionadas com base em um procedimento aleatório (pesquisas por amostragem aleatória com probabilidades de seleção conhecidas). As pesquisas por amostragem devem ser representativas das características básicas da população alvo, como a indústria, o tamanho e a região, sendo então necessária uma amostra estratificada.

433. Um censo pode ser inevitável em alguns casos. Pode ser um requisito legal que todas as pesquisas sobre negócios sejam censos. Ademais, quando a população de inferência é realmente pequena (por exemplo em países pequenos), uma amostragem apropriada pode produzir tamanhos de amostras para alguns estratos relativamente próximos ao tamanho da população de inferência dos estratos. Nesses casos pode valer a pena considerar a realização de censos. Finalmente, pode-se decidir que todas as unidades da população de inferência com número de empregados maior do que determinado valor sejam incluídas.

434. Para as pesquisas por amostragem a amostra de empresas deve ser grande o suficiente para fornecer resultados confiáveis para as unidades na população alvo, como os setores específicos. Estimativas de coeficientes aceitáveis de variação podem ser usadas para estimar o número necessário de respostas para que os resultados sejam confiáveis. A fração total da amostra irá variar conforme o tamanho da população total de inferência, enquanto as frações da amostra de cada estrato dependerão do número de unidades, do tamanho das unidades e da variabilidade dos principais indicadores. Em geral, a fração da amostra necessária irá decrescer com o número de unidades na população e aumentar com o tamanho das unidades e da variabilidade da amostra.

3.3 Domínios

435. Os subconjuntos particulares da população alvo podem ser de especial interesse para os usuários ou os usuários podem precisar de informações detalhadas na esfera setorial ou regional. Esses subconjuntos são chamados domínios (ou sub-populações). Para se obter resultados representativos para os domínios, eles devem ser subconjuntos dos estratos da amostra. A abordagem mais freqüente é a "super-alocação", para produzir resultados confiáveis para os domínios. Adicionalmente, o estabelecimento de domínios pode permitir a coordenação de diferentes pesquisas sobre as empresas privadas, assim como para comparações ao longo do tempo entre as empresas com características similares. Algumas sub-populações potenciais que podem ser consideradas são: os agrupamentos industriais, as classes de tamanho, as regiões, as unidades que realizam P&D e as unidades ativamente inovadoras.

436. Algumas diretrizes para o uso dos domínios são:

  • As unidades estatísticas e classificações devem ser as mesmas em qualquer parte da amostra incluindo os domínios.
  • Os métodos usados (por exemplo os métodos de ponderação) para calcular os resultados para os subconjuntos devem ser consistentes com aqueles usados para os resultados a partir da amostra principal.
  • Os desvios no tratamento dos dados ou as diferenças na qualidade dos resultados dos domínios devem ser documentados.

3.4 Técnicas de amostragem

437. As pesquisas sobre inovação são em geral pesquisas gerais de amostras aleatórias. A literatura relevante oferece várias técnicas de amostragem, tais como a técnica de amostragem aleatória simples, as técnicas de estratificação, as técnicas de amostragem por grupos e as técnicas de amostragem pps28. As técnicas podem ser combinadas. No passado, as pesquisas de amostragem estratificada mostraram-se eficientes na produção de resultados confiáveis.

438. Se as técnicas de estratificação são usadas, algumas regras gerais devem ser observadas com relação à seleção das variáveis de estratificação. Em princípio, a estratificação da população deve conduzir aos estratos mais homogêneos possíveis em termos de suas atividades de inovação e de suas outras atividades. Uma vez que as atividades de inovação das unidades em diferentes indústrias e em diferentes classes de tamanho podem diferir significativamente, recomenda-se que a estratificação de pesquisas por amostragem aleatória baseie-se no tamanho e na atividade principal das unidades.

439. O tamanho das unidades deve ser medido pelo número de empregados. O Capítulo 4 apresenta as classes de tamanho recomendadas. Algumas recomendações para os propósitos analíticos, que podem também ser usadas para a estratificação, são fornecidas abaixo.

440. A estratificação das unidades de acordo com suas atividades principais deve basear-se nas classificações ISIC Rev. 3.1/NACE Rev. 1.1. O nível de classificação depende em grande parte das circunstâncias nacionais. Tome-se o exemplo de uma economia especializada na produção de madeira (Divisão 20 da ISIC Rev. 3.1/NACE Rev. 1.1). Para esse país, pode ser útil uma subdivisão adicional em um grupo ou mesmo uma classe, mas não seria útil em outra economia onde a produção de madeira não é importante. Entretanto, os estratos não devem ser agregados acima do nível da divisão (dois dígitos da ISIC Rev. 3.1/NACE Rev. 1.1).

441. Se os aspectos regionais forem importantes, a estratificação deve também incluir uma dimensão regional. Deve-se usar uma classificação regional apropriada. A discussão das análises regionais encontra-se no Capítulo 4.

442. As frações da amostragem não devem ser as mesmas para todos os estratos. Recomenda-se geralmente que a fração de um estrato da amostragem seja maior para os estratos mais heterogêneos (alocação ótima), e também maior para os estratos menores. As frações da amostragem devem ser da ordem de 100% em estratos com apenas algumas unidades (ou em certas regiões). O tamanho das unidades deve também ser considerado ao se usar a abordagem por amostragem pps, usando-se assim as frações de amostragem mais baixas em estratos com unidades menores. Além disso, as unidades em cada estrato podem ser classificadas por tamanho ou pelo faturamento e então testadas sistematicamente. Outro fator, que deve ser levado em consideração quando se fixam as frações de amostragem individuais, é a taxa de resposta esperada em cada estrato.

3.5 Pesquisas de dados em painel

443. A abordagem padrão para as pesquisas sobre inovação é a de cortes transversais repetidos, em que uma nova amostra aleatória é retirada de uma dada população para cada pesquisa sobre inovação. Uma abordagem alternativa ou suplementar é a imposição de uma estrutura de dados em painel, por meio da qual uma dada amostra de unidades é estudada mais vezes e em cada pesquisa subseqüente usando-se o mesmo conjunto de questões.

444. Os dados em painel oferecem a oportunidade de seguir o desenvolvimento do processo de inovação ao longo do tempo na esfera microeconômica. Em particular, eles permitem a análise no tempo dos efeitos de vários indicadores de inovação sobre variáveis econômicas como vendas, produtividade, exportações e empregados.

445. As pesquisas de dados em painel podem ser conduzidas paralelamente a pesquisas de inovação de cortes transversais maiores. Todavia, diversas diretrizes devem ser seguidas:

  • A unidades devem ser integradas com pesquisas de cortes transversais em escala completa nos anos em que ambos são realizados, para reduzir os custos sobre as unidades e para assegurar um nível aceitável de consistência entre os resultados das duas pesquisas.
  • Os painéis devem ser construídos de tal forma que eles não afetem a pesquisa de corte transversal principal.
  • Se possível, as informações de outras pesquisas sobre o emprego, as vendas, o valor adicionado e o investimento devem ser relacionadas à pesquisa em painel assim como à pesquisa de cortes transversais maiores para as análises empíricas.

3.6 Os métodos da pesquisa e os respondentes apropriados

446. Vários métodos podem ser usados para conduzir pesquisas sobre inovação, incluindo-se as pesquisas postais e as entrevistas pessoais. Cada método possui diferentes pontos fortes e fracos. As pesquisas postais são bem estabelecidas e comparativamente menos custosas, mas podem apresentar problemas. Geralmente são necessários vários lembretes, incluindo os telefônicos, para aumentar as taxas de resposta para níveis aceitáveis. As ações que podem ser realizadas para aumentar as taxas de resposta futuras incluem: contatar os respondentes previamente à condução da pesquisa, enviar uma carta de apresentação do ministro, enviar os resultados básicos de pesquisas anteriores, fornecer a possibilidade de acesso a um "questionário inteligente" via Internet ou prometer enviar aos respondentes os principais achados da pesquisa em andamento29.

447. Muitos dos problemas com pesquisas postais podem ser evitados quando se coletam os dados por meio de entrevistas pessoais, usando-se por exemplo, as técnicas de entrevistas telefônicas ou presenciais auxiliadas por computador, denominadas respectivamente CATI (computer-assisted personal interviews) ou CAPI (computer-assisted telephone interviews). As entrevistas podem fornecer diretrizes para a resposta do questionário. Espera-se que a qualidade dos resultados para as técnicas CAPI seja maior e que as taxas de não resposta por item sejam menores. Porém, os métodos CAPI são particularmente mais custosos que as pesquisas postais.

448. Um obstáculo para a CATI é a questão da coleta de dados quantitativos sobre a atividade de inovação. Essa questão geralmente consome tempo para os cálculos, de modo que os entrevistados possam não conseguir responder o questionário inteiro em um único telefonema. Ademais, nas unidades grandes, os questionários são respondidos conjuntamente por diferentes áreas ou setores, o que pode exigir diversas chamadas para que um questionário seja completado.

449. Uma abordagem alternativa consiste no uso de tecnologias on-line ou automatizadas para a coleta e troca de dados. Essas tecnologias apresentam uma diferença no tocante ao uso das questões de filtro. Em um questionário em papel os respondentes vêem todas as questões e podem modificar suas respostas para uma questão de filtro. Um questionário eletrônico pode ser formulado de tal forma que os respondentes não vejam todas as questões e não possam, portanto, alterar suas respostas após terem visto outras informações (o mesmo pode ser feito para os formatos CATI e CAPI). Uma opção seria permitir a todos os respondentes ver o questionário inteiro, inclusive as questões que eles não precisam responder. Essa abordagem também levanta discussões sobre a confidencialidade e a continuidade (por exemplo retornar ao questionário diversas vezes antes que ele seja concluído).

450. A escolha do respondente mais apropriado é particularmente importante em pesquisas sobre inovação, pois as questões são muito especializadas e podem ser respondidas por apenas poucas pessoas na unidade, que muitas vezes não são aquelas que completam outros questionários estatísticos. Em unidades pequenas, os gerentes são freqüentemente bons respondentes. Em unidades maiores, muitas pessoas estão envolvidas, mas uma delas deve ser a responsável pela coordenação das respostas. Recomenda-se fortemente a realização de um esforço especial para identificar os respondentes pelo nome antes que a coleta de dados comece.

3.7 O questionário

451. Algumas regras básicas devem ser seguidas quando da formulação do questionário para uma pesquisa sobre inovação. Cada questionário deve ser testado antes de ser usado em campo (pré-teste). O pré-teste pode incluir entrevistas com um grupo de gerentes ou especialistas a respeito de seu entendimento do projeto do questionário e o envio do questionário a uma pequena amostra de unidades. Essas duas etapas podem ser valiosas para o melhoramento da qualidade do questionário.

452. O questionário deve ser o mais simples possível, logicamente estruturado, e ter definições e instruções claras. Geralmente, quanto mais longo é o questionário, menores são as taxas de resposta por unidade e por item. Esse efeito pode ser minimizado dando-se especial atenção à concepção e ao desenho do questionário e fornecendo-se notas explicativas e exemplos claros e suficientes. É particularmente importante a formulação do questionário de maneira que as unidades que não realizaram atividades de inovação respondam apesar disso as questões que para elas são relevantes.

453. O entendimento do questionário por parte dos respondentes pode aumentar à medida que eles passam de uma questão para outra. Isso significa que suas respostas podem depender da ordem das questões. Adicionar ou excluir uma questão pode influenciar as respostas subseqüentes.

454. As questões sobre diversos indicadores quantitativos podem usar uma escala binária (sim ou não), ou uma escala ordinal, por exemplo quando se pergunta às empresas se determinado fator é relevante e, sendo o caso, qual é sua importância. A escala binária possui a vantagem de ser simples e confiável mas ela fornece apenas informações limitadas sobre os fatores considerados. Não obstante, ela pode introduzir um alto grau de subjetividade se a resposta não pode basear-se em fatos, devido a diferenças na interpretação da questão. Uma escala ordinal permite a ordenação dos fatores de acordo com sua importância, embora isso também introduza algum grau de subjetividade. Porém, estão disponíveis métodos analíticos para minimizar esses problemas com as escalas ordinais de respostas.

455. No caso das pesquisas internacionais sobre inovação, deve-se dar especial atenção à tradução e à estrutura do questionário. Mesmo pequenas diferenças entre os questionários nacionais podem restringir a comparabilidade dos resultados. Tais diferenças podem derivar, por exemplo, da tradução, de mudanças na ordem das questões, ou da adição ou eliminação de categorias. Uma tradução pertinente, que considera circunstâncias locais particulares (como o sistema legal de um país), ajudará a evitar equívocos em conceitos e definições.

3.7.1 Questionários curtos

456. Para muitas unidades pequenas e unidades em setores com atividades de inovação menos intensas, o custo das respostas para um questionário que é voltado totalmente para a inovação pode ser muito grande vis-à-vis as atividades de inovação realizadas. As taxas de não resposta podem ser ainda maiores para essas unidades. Nesses casos, questionários mais curtos centrados em um conjunto de questões-chave podem ser úteis. Os questionários curtos podem também ser usados nas unidades de avaliação que não registraram atividades de inovação em pesquisas anteriores sobre inovação. Por outro lado, para as unidades individuais dos grupos mencionados (unidades pequenas e setores menos inovadores) que registraram atividades de inovação anteriormente, os questionários completos podem ser usados.

3.8 Pesquisas sobre inovação e P&D

457. Uma vez que P&D e inovação são fenômenos relacionados, alguns países podem considerar a combinação de pesquisas sobre P&D e inovação. Há vários argumentos a favor e contra:

  • Com uma pesquisa combinada, o custo total das respostas das unidades sob análise será reduzido (apenas um questionário, em vez de duas pesquisas separadas que apresentam questões iguais).
  • Se o tamanho do questionário para pesquisas combinadas for muito maior do que para uma pesquisa separada, as taxas de resposta podem diminuir.
  • Uma pesquisa combinada permite a análise das relações entre a P&D e as atividades de inovação na esfera da unidade. Há menos flexibilidade para isso em pesquisas separadas, especialmente quando elas são conduzidas por instituições diferentes.
  • Há um risco de que as unidades não familiarizadas com os conceitos de P&D e inovação confundam esses conceitos em uma pesquisa combinada.
  • As pesquisas combinadas oferecem um método eficiente para aumentar a freqüência das pesquisas sobre inovação.
  • As experiências de alguns países (por exemplo, Dinamarca, Finlândia, Países Baixos, Noruega e Espanha) indicam que é possível obter resultados confiáveis para as despesas com P&D em pesquisas combinadas.
  • As estruturas para as duas pesquisas são geralmente diferentes. Por exemplo, a população de inferência para as pesquisas sobre inovação pode cobrir as classificações industriais (e as unidades pequenas) que não estão incluídas em pesquisas sobre P&D. Combinar os dois tipos de pesquisa pode envolver enviar questões sobre P&D para um grande número de insituições que não desenvolvem P&D e que estão incluídas na população de inferência para a pesquisa sobre inovação. Isso aumentaria o custo da pesquisa conjunta.

458. Em princípio, as pesquisas sobre empresas afora aquelas sobre P&D podem também combinar-se com pesquisas sobre inovação. Realizaram-se algumas experiências na combinação de pesquisas sobre inovação com pesquisas estruturais sobre empresas (por exemplo na Bulgária, Itália e Países Baixos). Ademais, as pesquisas sobre inovação podem integrar-se às pesquisas de atividades econômicas privadas sobre a difusão das TICs, e sobre a adoção de práticas de gestão do conhecimento.

459. Embora o Manual não recomende o uso de pesquisas combinadas, a experiência de alguns países indica que eles fornecem uma opção praticável para aumentar a freqüência da coleta de dados. Algumas diretrizes para a condução de pesquisas combinadas são:

  • Para reduzir o risco de uma confusão conceitual entre P&D e inovação, o questionário deve ter duas seções distintas. Seções separadas devem também ser usadas quando se combinam pesquisas sobre inovação com outros tipos de pesquisas.
  • Para evitar reduções nas taxas de resposta, as seções individuais para P&D e inovação devem ser menores do que em pesquisas separadas, para que o tamanho da pesquisa combinada seja comparável ao de uma pesquisa sobre um único tema.
  • As comparações dos resultados de pesquisas combinadas com os de pesquisas separadas sobre inovação devem ser feitas com cuidado, e deve-se descrever os métodos de avaliação.
  • As amostras dessas pesquisas devem ser extraídas de um cadastro comum de empresas com o intuito de evitar inconsistências nas populações de inferência.
   
 

28 Amostragem pps = As unidades são incluídas com Probabilidades Proporcionais a seu Tamanho (Probabilities Proportional to their Size), muitas vezes medido pelo número de empregados no setor empresarial. (Ir para o texto)

29 Encontram-se diretrizes adicionais para melhorar as taxas de resposta para as pesquisas postais em Dillman (1978) e em Moore e Baxter (1993). (Ir para o texto)