Brasil Inovador
Manual de Oslo - Diretrizes para Coleta e Interpretação de Dados Sobre Inovação
   
   
 

3. Uma estrutura de mensuração

98. Essas diferentes teorias formam a base para a estrutura de mensuração da inovação usada neste Manual. Elas ressaltam, entre outras coisas, as forças motoras por trás da inovação, a importância não apenas dos produtos e processos mas também do marketing e das práticas organizacionais, o papel das interações e da difusão e a visão da inovação como um sistema.

99. O elo entre a inovação e a mudança econômica é de central interesse. Por meio da inovação, novos conhecimentos são criados e difundidos, expandindo o potencial econômico para o desenvolvimento de novos produtos e de novos métodos produtivos de operação. Esses melhoramentos dependem não apenas do conhecimento tecnológico mas também de outras formas de conhecimento que são usadas para desenvolver inovações de produto, processo, marketing e organizacionais. Os tipos específicos de inovação podem diferir muito com relação a seus impactos sobre o desempenho da empresa e sobre a mudança econômica. Por essa razão, é importante saber identificar a implementação e os impactos dos diferentes tipos de inovação.

100. A figura 2.1 apresenta essa estrutura da perspectiva da empresa, o alvo das pesquisas sobre inovação. Outros modelos sobre o processo de inovação, como o modelo chain-link de Kline e Rosemberg (Kline e Rosemberg, 1986) ou o dínamo da inovação (OCDE/Eurostat, 1997), oferecem uma visão teórica útil para os processos de inovação mas são menos adaptados para guiar o delineamento de pesquisas de inovação. A estrutura utilizada no Manual representa, pois, uma integração de visões de várias teorias da inovação baseadas na empresa com as abordagens que assumem a inovação como um sistema. As principais características dessa estrutura são:

  • A inovação na empresa.
  • As interações com outras empresas e instituições de pesquisa.
  • A estrutura institucional nas quais as empresas operam
  • O papel da demanda

 

Figura 2.1 A estrutura de mensuração da inovação

 

101. As inovações nas empresas referem-se a mudanças planejadas nas suas atividades com o intuito de melhorar seu desempenho. A partir da discussão da teoria da inovação acima, o conceito de inovação utilizado no Manual refere-se a mudanças caracterizadas pelos seguintes aspectos:

  • A inovação está associada à incerteza sobre os resultados das atividades inovadoras. Não se sabe de antemão qual será o resultado das atividades de inovação, por exemplo se a P&D vai resultar no desenvolvimento bem-sucedido de um produto comercializável ou qual é a quantidade necessária de tempo e de recursos para implementar um novo processo de produção, marketing ou método de produção, ou o quão bem-sucedidas essas atividades serão.
  • A inovação envolve investimento. O investimento relevante pode incluir a aquisição de ativos fixos ou intangíveis assim como outras atividades (tais como o pagamento de salários ou as compras de materiais ou de serviços) que podem render retornos potenciais no futuro.
  • A inovação é o substrato dos transbordamentos. Os benefícios da inovação criadora são raramente apropriados por completo pela empresa inventora. As empresas que inovam por meio da adoção de uma inovação podem beneficiar-se dos transbordamentos de conhecimentos ou do uso da inovação original. Para algumas atividades de inovação os custos da imitação são substancialmente menores que os custos de desenvolvimento, por isso deve-se exigir um mecanismo efetivo de apropriação, que ofereça um incentivo a inovar.
  • A inovação requer a utilização de conhecimento novo ou um novo uso ou combinação para o conhecimento existente. O conhecimento novo pode ser gerado pela empresa inovadora no curso de suas atividades (isto é, pela P&D intramuros) ou adquirido externamente de vários canais (por exemplo, pela compra de uma nova tecnologia). O uso de conhecimento novo ou a combinação do conhecimento existente requer esforços inovadores que podem ser distinguidos das rotinas padronizadas.
  • A inovação visa melhorar o desempenho de uma empresa com o ganho de uma vantagem competitiva (ou simplesmente a manutenção da competitividade) por meio da mudança da curva de demanda de seus produtos (por exemplo, aumentando a qualidade dos produtos, oferecendo novos produtos ou conquistando novos mercados ou grupos de consumidores), ou de sua curva de custos (por exemplo, reduzindo custos unitários de produção, compras, distribuição ou transação), ou pelo aprimoramento da capacidade de inovação da empresa (por exemplo aumentando sua capacidade para desenvolver novos produtos ou processos ou para ganhar e criar novos conhecimentos).

102. Há duas opções principais para a empresa que deseja mudar seus produtos, capacitações ou sistemas de produção, marketing e organização. A empresa pode investir em atividades de criação para desenvolver inovações internamente – sozinha ou em parceria com outras empresas – ou pode adotar inovações desenvolvidas por outras empresas ou instituições como parte de um processo de difusão. Essas duas possibilidades oferecem incontáveis combinações, como a empresa adotar uma inovação organizacional desenvolvida por outra e ajustá-la para operar de acordo com suas próprias rotinas, ou a empresa adaptar uma nova tecnologia de fabricação para sua linha de produção, ou mesmo introduzir um novo componente, obtido de um fornecedor, em um produto de consumo. Ambas, criação e adoção de inovações, podem envolver o aprendizado intensivo, a interação com outros atores ou interações externas mínimas.

103. As atividades inovadoras específicas utilizadas pelas empresas para o desenvolvimento ou aquisição de inovação abarcam a P&D e muitas outras atividades que são sumarizadas abaixo.

  • P&D: define-se P&D no Manual Frascati (OCDE, 2002) e estão incluídas as seguintes propriedades:
    1. A empresa pode engajar-se em pesquisa básica ou aplicada para adquirir novos conhecimentos e em pesquisas diretas em busca de invenções específicas ou modificações de técnicas já existentes.
    2. A empresa pode desenvolver novos conceitos de produtos ou processos ou outros métodos novos para estimar se eles são factíveis e viáveis, um estágio que pode compreender: a) desenvolvimento e teste; e b) pesquisas adicionais para modificar desenhos ou funções técnicas.
  • Outras atividades de inovação: A empresa pode dedicar-se a muitas atividades 'não-P&D' que podem constituir a inovação. Essas atividades podem fortalecer as capacitações que permitem o desenvolvimento de inovações ou a capacidade de adoção bem-sucedida de inovações desenvolvidas por outras empresas ou instituições:
    1. A empresa pode identificar novos conceitos para produtos, processos, métodos de marketing ou mudanças organizacionais: a) via marketing e relações com os usuários; b) via identificação de oportunidades para comercialização, resultante seja de sua própria pesquisa básica ou estratégica, seja da pesquisa realizada por outras empresas; c) via suas capacidades de concepção e desenvolvimento de produtos; d) pelo monitoramento dos competidores; e d) pela utilização de consultores.
    2. A empresa pode comprar informações técnicas, pagando taxas ou royalties por invenções patenteadas (que normalmente exigem trabalho de pesquisa e desenvolvimento para adaptar e modificar a invenção de acordo com suas próprias necessidades), ou comprar experiência e know-how por meio de engenharia, design ou outros serviços de consultoria.
    3. As habilidades humanas podem ser desenvolvidas (por meio de treinamento interno) ou compradas (pela contratação); o aprendizado tácito e informal – "learning by doing" – pode também estar incluído.
    4. A empresa pode investir em equipamentos, softwares ou insumos intermediários que incorporam o trabalho inovador de outros.
    5. Ela pode reorganizar os sistemas de gerenciamento e todas as suas atividades de negócios.
    6. Ela pode desenvolver novos métodos de marketing e vender seus produtos e serviços.

104. Todas essas atividades de inovação têm como objetivo final a melhoria do desempenho da empresa. Elas podem ter o objetivo de desenvolver e implementar novos produtos e processos, novos métodos de promoção e vendas dos produtos e/ou mudanças nas práticas e na estrutura organizacional da empresa.

105. O ambiente institucional determina os parâmetros gerais com os quais as empresas operam. Os elementos que o constituem incluem:

  • O sistema educacional básico para a população em geral, que determina padrões educacionais mínimos na força de trabalho e o mercado consumidor doméstico.
  • O sistema universitário.
  • O sistema de treinamento técnico especializado.
  • A base de ciência e pesquisa.
  • Reservatórios públicos de conhecimento codificado, tais como publicações, ambiente técnico e padrões de gerenciamento.
  • Políticas de inovação e outras políticas governamentais que influenciam a inovação realizada pelas empresas.
  • Ambiente lesgislativo e macroeconômico como lei de patentes, taxação, regras de governança corporativa e políticas relacionadas a taxas de lucro e de câmbio, tarifas e competição.
  • Instituições financeiras que determinam, por exemplo, a facilidade de acesso ao capital de risco.
  • Facilidade de acesso ao mercado, incluindo possibilidades para o estabelecimento de relações próximas com os consumidores, assim como assuntos como o tamanho e a facilidade de acesso.
  • Estrutura industrial e ambiente competitivo, incluindo a existência de empresas fornecedoras em setores complementares.