Brasil Inovador
Manual de Oslo - Diretrizes para Coleta e Interpretação de Dados Sobre Inovação
   
   

Capítulo 1 – Objetivos e Escopo do Manual

1. Introdução

1. Aceita-se amplamente que a inovação seja central para o crescimento do produto e da produtividade. Entretanto, embora nosso entendimento sobre as atividades de inovação e seu impacto econômico tenha aumentado muito desde a primeira edição do Manual, ele ainda é deficiente. Por exemplo, assim como a economia mundial evolui, o mesmo ocorre com o processo de inovação. A globalização conduziu empresas a crises dramáticas no que diz respeito ao acesso à informação e a novos mercados. Ela também resultou em maior competição internacional e em novas formas de organização para lidar com cadeias de fornecimento global. Devido a vantagens em tecnologias e maiores fluxos de informação, o conhecimento é cada vez mais percebido como um condutor central do crescimento econômico e da inovação. Porém, ainda não se sabe como tais fatores afetam a inovação.

2. Para o desenvolvimento de políticas de suporte apropriado à inovação, é necessário um melhor entendimento de vários aspectos críticos do processo de inovação, tais como as atividades de inovação que não estão incluídas na Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), as interações entre os atores e os fluxos relevantes de conhecimento. O desenvolvimento de políticas também exige a obtenção de melhores informações.

3. A primeira edição do Manual, publicada em 1992, e as pesquisas que a utilizaram, incluindo o Community Innovation Survey (CIS) organizado pela União Européia (UE) e comparável às pesquisas da Austrália e do Canadá, mostraram que é possível desenvolver e coletar dados no complexo e diferenciado processo de inovação.

4. A segunda edição, de 1997, atualizou a estrutura dos conceitos, definições e metodologia para incorporar experiências de pesquisas e uma maior compreensão do processo de inovação, assim como para cobrir um conjunto maior de indústrias. A publicação aprimorou as diretrizes para desenvolver indicadores de inovação internacionalmente comparáveis para os países da OCDE e discutiu os problemas analíticos e de políticas para os quais os indicadores são relevantes.

5. As duas primeiras edições usaram a definição de inovação tecnológica de produto e processo (TPP). Isso refletiu um foco em desenvolvimentos tecnológicos de novos produtos e novas técnicas de produção pelas empresas e sua difusão para outras firmas. Uma discussão sobre inovação não-tecnológica foi incluída no anexo.

6. Desde 1992, o número de países que realizaram pesquisas sobre inovação cresceu muito: países da UE, outros países da OCDE como Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Japão, e um grande número de economias fora da OCDE, entre as quais vários países latino-americanos, Rússia e África do Sul.

7. Esta terceira edição do Manual conta com uma vasta quantidade de dados e com a experiência resultante dessas pesquisas. Ela expande a estrutura de mensuração da inovação em três importantes sentidos. Primeiro, há uma maior ênfase no papel das interações com outras empresas e instituições no processo de inovação. Além disso, a importância de inovação é reconhecida em indústrias menos intensivas em P&D, como os serviços e a indústria de transformação de baixa tecnologia. Esta edição modifica alguns aspectos da estrutura (tais como definições e atividades relevantes) para melhor acomodar o setor de serviços. Finalmente, a definição de inovação é expandida para incluir dois outros tipos de inovações: inovação organizacional e inovação de marketing. Outra novidade do Manual é um anexo sobre as pesquisas de inovação em países fora da OCDE e reflete o fato de que um número crescente desse países conduz atualmente pesquisas sobre inovação.

8. A avaliação das interações foi ampliada em virtude da importância dos fluxos de conhecimento entre as firmas e outras organizações para o desenvolvimento e a difusão de inovações. Isso ajuda a entender o papel das estruturas organizacionais e das práticas que promovem o compartilhamento e o uso do conhecimento e da interação com outras empresas e instituições públicas. Isso inclui também a formação de relacionamentos mais próximos com fornecedores e o avanço do desenvolvimento de práticas de marketing para melhor atingir os consumidores. As interações estão agora em um capítulo separado que cobre uma variedade de interações que vão das trocas entre unidades autônomas de informação ao envolvimento ativo em projetos de inovação conjuntos.

9. Ainda que a segunda edição do Manual tenha incluído os serviços, seu foco principal foram as indústrias de transformação. Todavia, a inovação em setores voltados para serviços difere substancialmente da inovação em muitos setores de transformação. A inovação em serviços é organizada de forma menos formal, possui natureza mais incremental e é menos tecnológica. Para o estabelecimento de uma estrutura que acomoda melhor esse amplo conjunto de indústrias, esta edição modifica diversas definições, termos e conceitos.

10. Para identificar a grande variedade de mudanças que as firmas implementam em busca de melhor desempenho e seu sucesso em aprimorar o resultado econômico é necessário uma estrutura mais abrangente do que a de inovações tecnológicas de produto e processo. A inclusão das inovações organizacionais e de marketing origina uma estrutura mais completa, que está mais apta a capturar as mudanças que afetam o desempenho da firma e contribuem para o acúmulo de conhecimento.

11. O papel da inovação organizacional é ressaltado por Lam (2005): "Os economistas supõem que a mudança organizacional é uma resposta a uma mudança técnica, quando de fato a inovação organizacional poderia ser uma condição necessária para a inovação técnica." As inovações organizacionais não são apenas um fator de apoio para as inovações de produto e processo; elas mesmas podem ter um impacto importante sobre o desempenho da firma. Inovações organizacionais podem também melhorar a qualidade e a eficiência do trabalho, acentuar a troca de informações e refinar a capacidade empresarial de aprender e utilizar conhecimentos e tecnologias.

12. As empresas podem também alocar grandes quantidades de recursos para pesquisas de mercado e para o desenvolvimento de novas práticas de marketing, tais como objetivar novos mercados ou segmentos de mercado e desenvolver novos meios de promover seus produtos. Novas práticas de marketing podem exercer um papel central no desempenho das empresas. Práticas de marketing são também importantes para o sucesso de novos produtos. Pesquisas de mercado e contatos com os consumidores podem atuar de forma crucial no desenvolvimento de produtos e processos por meio da inovação conduzida pela demanda. A inclusão da inovação organizacional e de marketing também permite análises extensivas das interações entre diferentes tipos de inovação, em particular da importância da implementação de mudanças organizacionais para tirar proveito de outros tipos de inovações.

13. As inovações organizacionais foram discutidas na segunda edição do Manual e há agora uma experiência prática com a coleta de dados em mudanças organizacionais. Essa experiência inclui pesquisas especializadas em inovação organizacional (Wengel et al., 2000), a participação da inovação organizacional em pesquisas sobre inovação (como o Australian Innovation Survey 2003) ou discussões sobre mudanças organizacionais (a pesquisa CIS3, o Japanese National Innovation Survey 2003, entre outros). Essa abordagem tem sido utilizada também em análises empíricas, como a da relação entre inovação organizacional, investimento em Tecnologia da Informação e da Comunicação (TIC) e produtividade (por exemplo Brynjolfsson and Hilt, 2000; OCDE, 2004).

14. As inovações de marketing são novas no Manual. Embora haja menos experiências com inovações de marketing vis-à-vis as inovações organizacionais, discussões sobre mudanças em marketing foram incluídas em várias pesquisas sobre inovação1, e há campos de teste dos conceitos de marketing em diversos países.

15. Para realizar um retrato completo das atividades de inovação é necessário incluir métodos de marketing em sua estrutura. Há pelo menos duas razões para inclui-los em uma categoria separada, ao invés de integrá-los em inovações organizacionais ou de processo. Inicialmente, inovações de marketing podem ser importantes para o desempenho da firma e o processo geral de inovação. Identificar inovações de marketing permite a análise de seu impacto e sua interação com outros tipos de inovações. Ademais, uma característica que define inovações de marketing é o fato de estarem orientadas aos consumidores e mercados, com o objetivo de incrementar as vendas e a fatia de mercado. Esses objetivos econômicos podem ser muito diferentes daqueles ligados a inovações de processo, que tendem a focar em qualidade produtiva e eficiência. Agrupar inovações de marketing com inovações organizacionais seria também problemático porque algumas práticas de marketing não se ajustam a conceitos de mudanças organizacionais e porque diluiria bastante os dados em inovações organizacionais, levando a uma difícil interpretação dos resultados.

16. As definições e conceitos do Manual foram então adaptados, baseados em experiências de pesquisas na Austrália e outros países, para incluir inovações organizacionais e de marketing nas pesquisas sobre inovação. As definições desses tipos de inovação estão ainda em desenvolvimento e estão menos estabelecidas do que as definições de inovação de produto e de processo.

17. Os objetivos e o escopo das pesquisas sobre inovação podem diferir no que diz respeito aos aspectos da inovação a serem tratados e ao nível de detalhe. Além disso, no tratamento expandido da inovação de produto e processo, incluindo as inovações organizacionais e de marketing, as pesquisas podem adotar uma entre várias abordagens. Por exemplo, eles podem tratar todos os tipos de inovação, compreendendo as inovações organizacionais e de marketing em alguma medida mas ainda mantendo as inovações de produto e processo como os elementos centrais, ou podem focar exclusivamente nas inovações de produto e processo. O Manual oferece diretrizes que podem ser utilizadas para todos os tipos de abordagens. Ademais, pode-se tratar um ou mais tipos de inovação com maior detalhe em pesquisas especiais.

18. A inclusão de inovações organizacionais e de marketing, ao lado do uso de uma definição que compreende as atividades para desenvolver e adotar inovações, denota que uma porcentagem crescente de firmas está apta a encontrar os requisitos básicos para serem "inovadoras". Entretanto, são ainda necessários métodos de identificação dos diferentes tipos de firmas inovadoras, baseados nos tipos de inovações que elas implementaram e em suas capacidades e atividades inovadoras. Não é suficiente saber se as empresas são inovadoras ou não; é necessário saber como elas inovam e quais são os tipos de inovações que elas implementam.

19. Com base nesses parâmetros, o propósito do presente capítulo é oferecer uma visão geral do espectro e do conteúdo do Manual (ver Box 1.1).

Box 1.1 Estrutura do Manual

O Manual começa com uma discussão geral dos pontos que provavelmente têm algum efeito na escolha de indicadores (Capítulo 2):

  • Uma compreensão conceitual adequada da estrutura e das características do processo de inovação e suas implicações para a formulação de políticas.
  • Os problemas-chave não resolvidos que dados adicionais poderiam esclarecer.

Em seguida, há um arcabouço para pesquisas sobre inovação:

  • Definições básicas de inovação, atividades inovadoras e empresas inovadoras (Capítulo 3).
  • Classificações institucionais (Capítulo 4)

Posteriormente, são feitas recomendações e sugestões relacionadas com os tipos de temas a serem tratados em pesquisas nacionais e internacionais:

  • Mensuração das interações no processo de inovação; tipos de conhecimento e suas fontes (Capítulo 5).
  • Atividades de inovação e sua mensuração (Capítulo 6).
  • Objetivos, barreiras e impactos da inovação (Capítulo 7).

O Manual contém ainda dois anexos:

  • Pesquisas sobre inovação em economias em desenvolvimento (Anexo A).

Uma lista detalhada de exemplos de inovação (Anexo B).

   
  1 Esses estudos incluem discussões sobre mudanças de marketing (a pesquisa CIS3, o Japanese National Innovation Survey 2003, entre outros). Ademais, o Intangible Assests Survey 2004 na França incluiu todos os quatros tipos de inovação (isto é, de marketing, organizacional, de produto e de processo) assim como várias outras discussões em práticas de marketing. A pesquisa CIS4, em curso no momento de publicação do Manual, também incluiu todos os quatro tipos de inovação. (Ir para o texto)