| RELATÓRIO SETORIAL PRELIMINAR |
| SETOR: CAFÉ | |
| PESQUISADOR: SANDRA MARA DE ALENCAR SCHIAVI | |
| DATA: 03/09/2003 | |
| ANEXOS: VER | |
| 1. Fontes de Informações sobre o Setor: | |
O material de referência sobre o setor cafeeiro utilizado para a elaboração do presente relatório consiste principalmente de informações obtidas na forma de artigos, de revistas especializadas ou não, de dados, de relatórios de pesquisa, bem como de entrevistas publicadas em sites na Internet. As informações disponíveis abrangem uma gama bastante vasta de tipos. Existem informações de caráter agronômico (por exemplo, referentes ao desenvolvimento genético dos grãos). Alguns exemplos de instituições que se enquadram nesse grupo são o Instituto Agrícola de Campinas (IAC), o informativo O Cafezal, disponível no site www.coffeebreak.com.br , a revista Cafeicultura www.revisdtacafeicultura.com.br), a EMBRAPA/Café e o Núcleo de Estudos em Cafeicultura da Universidade Federal de Lavras (NECAF/UFLA), e o Informe Tecnológico do Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café (CBPDC)/EMBRAPA. Outras informações são de caráter econômico, com números do setor, e da área médica, como aquelas acerca dos efeitos da cafeína no organismo. Como exemplos desse último, cita-se o inglês Coffee Science Informational Centre ( www.cosic.org ) e o informativo americano I Need Coffee ( www.ineedcoffe.com) Dentro desse quadro, para o presente trabalho foram tomadas principalmente as informações de cunho econômico, comercial, tecnológico, organizacional e gerencial, em especial referentes à indústria. A consideração de alguns trabalhos com informações técnicas/agronômicas na elaboração deste relatório decorre da importância de procedimentos e inovações nesses elos a montante da indústria (tipo de grão a ser cultivado, técnicas de cultivo, de colheita e de secagem, entre outros) para as características do produto final. Apesar de abranger várias áreas de estudo, houve alguma dificuldade para a obtenção de informações relevantes. Isso foi decorrente de três fatores. Primeiramente, devido ao fato de não existir um número muito vasto de trabalhos na área, Em segundo lugar, porque muitas vezes ocorre a disponibilização de informações somente para membros das fontes (associações, centros de pesquisa e outras instituições com sites na Internet). Nesse grupo enquadram-se sites dos mais diferentes tipos. Como exemplos, pode-se citar os sites do informativo Coffee Business ( www.coffeebusiness.com.br), da Associação Científica Internacional do Café ( www.asic-cafe.org), do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil ( www.cecafe.com.br) e da Associação Brasileira da Indústria de Café ( www.abic.com.br). Finalmente, a dificuldade de obtenção de informações relevantes para isso foi devido ao fato de que o conteúdo dos trabalhos muitas vezes é de caráter exclusivamente técnico/agronômico. De uma maneira geral, entretanto, pode-se observar um número de fontes, se não ideal, pelo menos suficientemente grande para a elaboração do presente trabalho. Isso decorre principalmente do fato de os estudos acadêmicos serem bastante completos, inclusive com informações sobre o setor em nível mundial. Por se tratar de um setor de grande relevância internacionalmente, caracterizado em grande parte por negociações formais (desde importantes traders a Bolsas de Valores e grandes redes supermercadistas no mundo), as informações obtidas são, no geral, bastante atualizadas, algumas vezes fornecidas diariamente, e os valores agregados disponíveis nas várias fontes são coerentes entre si. Os problemas com informações se limitaram a casos isolados, como no caso da disponibilização de dados sobre a produção agrícola, algumas fontes utilizando o ano calendário (2000, 2001, 2002, etc.), outras, fazendo uso do ano safra (1999/2000, 2000/2001, 2001/2002, etc.). Entretanto, não se trata aqui de incongruência, mas de uso de bases diferentes. Nesse ponto, observa-se diferença significativa em relação ao setor lácteo, onde a informalidade é bastante forte no Brasil. |
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| 1.1. Estudos acadêmicos: | |
Os trabalhos acadêmicos na área são recentes, em número reduzido e de elaboração restrita a poucas instituições, uma vez que o setor cafeeiro no Brasil e no mundo, antes da década de 90, caracterizava-se por forte regulamentação e, por isso, pouco interessante para estudos de competitividade. Com a exceção do PENSA, não se observa grupos de estudo consolidados no setor, de maneira que esse item caracteriza-se principalmente por estudos isolados. As principais instituições e grupos de pesquisa envolvidos na área, bem como os respectivos estudos tomados como base para o presente trabalho estão listados abaixo: Serviço de Apoio às Pequenas Empresas (Sebrae): o Sebrae é responsável pela encomenda de estudos e projetos em várias áreas, dentre as quais a do café. Em trabalho desenvolvido recentemente (SEBRAE-SP, 2001), na área de pesquisa e planejamento estratégico, em parceria com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), a instituição traça uma breve caracterização da cadeia do café no Brasil e aborda o desempenho das micro e pequenas empresas paulistas de torrefação e moagem (T&M) nesse contexto. Em outro trabalho (SEBRAE-MG, 2001), realiza diagnóstico sobre o sistema agroindustrial de cafés especiais em Minas Gerais. Faculdade de Economia e Administração – Universidade de São Paulo (FEA – USP): o Programa de Estudos dos Negócios do Sistema Agroindustrial (PENSA/FIA/FEA\USP) consiste no grupo mais consolidado na área, com a apresentação de publicações, relatórios de projetos e, principalmente, estudos de casos. Dentre os trabalhos do grupo, cita-se FARINA & SAES (1999), FAVA NEVES, SAES & REZENDE (2002), FARINA & ZYLBERSZTAJN. (1998) e SAES, SOUZA & SPERS (2001). Além disso, SAES (1995), em sua tese de doutorado, discorre sobre a regulamentação no setor cafeeiro mundial, bem como sua posterior desregulamentação, do ponto de vista do Brasil. Instituto de Economia Agrícola (IEA - SP): a instituição paulista disponibiliza, além de dados referentes ao estado de São Paulo, artigos na área, em nível nacional. MORICOCHI et al.. (2003) desenvolvem trabalho sobre o perfil tecnológico da indústria de T&M no Brasil, centrando em pontos referentes à gerência, produção, tecnologia, especialmente de processo, e competitividade das empresas que fazem parte da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC). Universidade Estadual de Campinas – Instituto de Economia (UNICAMP-IE): apesar de não possuir um grupo de estudo concreto na área, apresenta alguns trabalhos. COUTINHO & FERRAZ (1993) coordenaram o desenvolvimento de estudo contratado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PADCT), que traça um panorama do setor cafeeiro no mundo e no Brasil, e analisa, nesse contexto, a competitividade da indústria brasileira de T&M e de solúvel. Tal estudo foi elaborado pelo consultor Celso Rodrigues Vegro, do Instituto de Economia Agrícola. Além desse, estudo mais recente (COUTINHO et al., 2002), elaborado de maneira semelhante ao citado acima, aborda a questão da competitividade da cadeia do café, nesse caso com ênfase para os possíveis impactos causados com a constituição das zonas de livre comércio, ou seja, a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), e o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Européia (UE). Este documento foi elaborado pelos consultores Maria Sylvia Macchione Saes e Douglas Nakazone, com o apoio, na área de acesso a mercados, do consultor André Meloni Nassar. Instituto Agronômico de Campinas (IAC): órgão de pesquisa fundado em 1887, ligado à Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Tem como missão a geração e transferência de ciência e tecnologia no negócio agrícola, se dedicando à pesquisa agrícola, a fitotecnia e melhoramento de culturas, à engenharia agrícola, às ciências biológicas e à difusão de tecnologia e treinamento, entre outros. Por meio de publicações, como o boletim técnico-informativo O Agronômico e a revista de ciências agronômicas Bragantia, divulga informações sobre o café, ligadas principalmente à dimensão técnica, biológica e agronômica. Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea - Esalq - USP): centro de estudos que disponibiliza, entre outros, informativos mensais sobre o mercado cafeeiro nacional, com análise econômica e informações de preço do produto, tanto para o café Arábica quanto para o Robusta (Conillon). Centre de Coopération Internationale en Recherche Agronomique pour le Développement (CIRAD): trata-se de uma organização francesa de pesquisa agronômica para o desenvolvimento dos países tropicais e sub-tropicais, que apresenta dentro dos seus 26 programas de pesquisa, o café. Trata-se, juntamente com a ICO, da principal fonte internacional de captura de informações utilizada nesse trabalho. O dossiê sobre o café (CIRAD, 2003) fornece uma visão geral da recente crise mundial do café, suas origens, suas conseqüências e as possíveis soluções para o problema em questão. É também uma fonte rica em informativos e artigos na área, principalmente de periódicos especializados em agricultura. |
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| 1.2. Fontes setoriais - entidades patronais: | |
Nesse tipo de fonte, pôde-se observar um número razoável de associações, organizações e outras instituições representativas do setor cafeeiro, tanto nacional quanto mundial,. A maior parte dessas entidades, entretanto, representam os produtores agrícolas. No entanto, as informações são, em grande parte, acessíveis somente a membros dessas instituições, o que limita o acesso a um número maior de arquivos disponíveis. Entre as instituições que limitam, total ou parcialmente, o acesso a membros, pode-se citar a National Coffee Association of USA, o informativo Coffee Business, a Associação Científica Internacional do Café e o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil. Assim, poucas fontes setoriais podem ser utilizadas no trabalho, e ainda assim algumas, parcialmente . As principais foram: Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC): instituição representante da indústria cafeeira no país, com informações tanto da indústria T&M quanto de solúvel, que disponibiliza especialmente números sobre o setor e elabora o informativo Jornal do Café, este último, em grande medida, inacessível para não-membros. Coffee Break: site brasileiro especializado em fornecer informações sobre o café, tornando disponível o informativo O Cafezal, que traz grande número de artigos sobre plantio, colheita, secagem, qualidade do grão, mudanças na produção, além de alguns trabalhos acerca de consumo e de processamento. Associação Brasileira de Cafés Especiais: entidade fundada em 1991 para representar os produtores de cafés especiais no Brasil, difundindo a produção e buscando o aprimoramento e a eficiência (produtiva, gerencial e de comercialização). Por meio de informativo, divulga agenda de eventos e notícias sobre o segmento. Observatório Social: organização que analisa e pesquisa o comportamento de empresas em relação aos direitos fundamentais dos trabalhadores. Uma parceria entre a Oxfam Internacional – organização inglesa criada para a busca de soluções para a pobreza, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT), com a colaboração do Observatório Social, lançou o programa O que tem no seu café?, a fim de desvendar os motivos da crise na atividade cafeeira, considerando a exploração do trabalho. Na verdade, nos países produtores, o fator trabalho é muitas vezes intensivo e de grande relevância na determinação dos custos de produção. A crise, então, tem sido um sério condicionante social, pois afeta os ocupados na produção de café de duas maneiras: primeiro por aumentar o número de desocupados no setor, criando uma expansão do excedente; segundo, porque aqueles que continuam ocupados devem se sujeitar a menores rendimentos, para reduzir ainda mais os custos. No Brasil, foram realizados alguns estudos. Dentre eles, trabalho (OBSERVATÓRIO SOCIAL, 2002) que discorre sobre a crise mundial do café e suas influências na questão social, especialmente aquelas referentes à exploração do trabalho humano. International Coffee Organization (ICO): organização inter-governamental com sede na Inglaterra, representante dos principais países exportadores e importadores de café no mundo, que traz, além de estatísticas mundiais, entrevistas e textos sobre o assunto, bem como relatórios mensais sobre o mercado mundial de café. |
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| 1.3. Publicações jornalísticas: | |
Apesar da existência de publicações especializadas, tanto nacionais quanto internacionais, o acesso a essas fontes é dificultado pelo alto custo das assinaturas. No entanto, foi possível utilizar informações de publicações jornalísticas em algum grau. Por se tratar de um setor de grande relevância para o Brasil, encontra-se freqüência na publicação de artigos na mídia escrita não especializada. Além disso, existem informações de caráter internacional disponíveis em revistas internacionais não especializadas, tratando principalmente de assuntos referentes a estratégias de produção, comercialização e consumo. As principais fontes desse grupo utilizadas no trabalho foram:
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| 1.4. Fontes estatísticas: | |
Grande número de fontes estatísticas está disponível na Internet. Estas abrangem desde dados referentes à produção agrícola nacional (sacas colhidas, número de hectares plantados, e outros) até números relativos à comercialização mundial (quantidade exportada dos principais países produtores, quantidade importada pelos principais importadores, e outros). Devido à grande variedade de fontes estatísticas e de dados, e uma vez que o presente trabalho trata do setor em nível mundial e nacional, optou-se aqui pela concentração em dados de abrangência nacional (e não estadual), bem como em números que caracterizassem o setor mundialmente, muitas vezes desagregados por país. As principais fontes estatísticas foram: Departamento do Café - Secretaria de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento: site oficial que disponibiliza informações sobre o setor, tais como estatísticas do café, históricos de estoques e produção, legislações e relatórios de atividades. Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC): os valores numéricos fornecidos por essa fonte correspondem a dados de produção, vendas, exportação e consumo, principalmente relativos à indústria de T&M e solúvel no Brasil. International Coffee Organization (ICO): instituição bastante rica em dados do setor mundial, relativos tanto aos principais países produtores quanto aos principais importadores mundiais. Também traz dados sobre a comercialização e consumo do produto no mundo. Foreign Agricultural Service - United States Department of Agriculture (FAS-USDA): Serviço do Departamento de Agricultura norte-americano que, entre outros, fornece dados mundiais sobre vários tipos de cultura. O café está incluso na divisão produtos hortícolas e tropicais, e o tipo de informação é similar àquela fornecida pela ICO, esta última muitas vezes utilizando o USDA como fonte. |
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| 2. Introdução: | |
A cadeia mundial de café é caracterizada pela presença de várias etapas, que vão desde os fornecedores de insumos (matérias-primas, implementos agrícolas e equipamentos) para o produtor agrícola / cafeicultor, até o consumo do produto final em coffee shops (Anexo A). Existe uma diferença estrutural e tecnológica entre a produção de café solúvel e café T&M, o que por sua vez torna os arranjos produtivos um pouco diferentes. No entanto, de forma introdutória e simplificada, o arranjo da cadeia de café pode ser assim apresentado: de um lado, países produtores, geralmente em regiões tropicais e em desenvolvimento, caracterizados por grande número de cafeicultores (muitas vezes pequenos) reunidos em associações/sociedades/cooperativas; de outro lado, países consumidores e/ou processadores de café, concentrados na Europa e América do Norte, inclusive no que tange a matrizes de multinacionais. No caso dessas empresas, o padrão é que importem o café verde ou em grão, processem e disponibilizem para o consumo em várias formas, de acordo com os costumes e a cultura do local (café solúvel ou T&M, café mais encorpado ou mais fraco, com mistura (blend) local, gelado ou quente, adicionado de aromas ou não, etc). Apesar de complexa e muitas vezes suprimida de alguns elos, a cadeia produtiva do café pode ser assim enumerada, de acordo com os agentes:
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| 2.1. Classificações do setor: | |
Foram considerados, para o estudo tecnológico da cadeia de café, dois setores: a indústria produtora de café e o setor produtor de máquinas e equipamentos para a indústria de café. Este segundo setor foi considerado devido à sua relevância na oferta de tecnologia de processo para a indústria processadora de café. No caso da industrialização do café, segundo a Classificação da Atividade Econômica (CNAE), esse segmento pertence à indústria de transformação, na divisão de fabricação de produtos alimentícios e bebidas, no grupo de torrefação e moagem de café. A definição mais desagregada da CNAE engloba duas classes: torrefação e moagem de café, e fabricação de café solúvel (Anexo B). Algumas diferenças podem ser observadas com relação ao North American Industry Classification System (NAICS), adotado pelos EUA, Canadá e México. O NAICS diferencia fabricação de alimentos de fabricação de bebidas e fumo, estando o café incluso no primeiro grupo (Anexo A). Por outro, o nível abaixo, pelo NAICS, compreende fabricação de café e chá, enquanto que a ISIC – International Standard Industrial Classification (e portanto a CNAE) insere chá em grupo diferente do café. O código 311920 do NAICS - fabricação de chá e café - inclui os códigos 2043 (cereais matinais), 2095 (café torrado) e 2099 (preparação de outros produtos alimentícios) da ISIC. Dentro de café torrado para a ISIC, inclui-se a torrefação de café e a fabricação de concentrados e extratos de café em pó, liquido ou congelado, englobando aí o café solúvel. Assim, a um nível mais geral, o NAICS é mais específico, ao excluir café do grupo alimentos, mas é menos minuciosa ao agrupar café e chá no mesmo grupo. Na comparação da ISIC com a CNAE, a diferença reside na distinção da CNAE entre café torrado e café solúvel. Pela CNAE, as empresas produtoras de equipamentos para a indústria de café (torradores, moinhos, etc.) estão classificadas dentro do grupo das empresas fabricantes de máquinas e equipamentos de uso específico, na classe das empresas fabricantes de máquinas e equipamentos para as indústrias alimentar, de bebida e de fumo (Anexo B). Esse agrupamento dificulta a análise, uma vez que inclui equipamentos para uma gama muito grande de indústrias, tornando imprecisa as informações obtidas via essa classificação. No entanto, essa não é uma característica apenas da classificação adotada nacionalmente. A CNAE, nesse caso, é bastante semelhante ao NAICS e à ISIC: ambas incluem essa empresas no grupo de empresas produtoras de maquinário para a indústria alimentar, o que, embora não inclua fumo, também inclui bebidas (Anexo B). O produto, por sua vez, recebe mais de um tipo de classificação. Existe uma variedade de classificações, de acordo com o nível de processamento em que o produto se encontra. A organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação Food and Agriculture Organization (FAO), de maneira bastante ampla, classifica e define o café da seguinte forma: essa commodity é um fruto/cereja oriundo de uma planta tropical, despolpado, seco e descascado, sendo após essas etapas chamado de café verde. A partir daí, codifica e define o café de acordo com os processos sofridos (café verde, café torrado, substitutos do café, extratos de café e cascas de café) (Anexo C). Para a comercialização do café em grão, a ICO divulga os preços indicativos do café no mercado de Nova York sob as seguintes classificações: Colombiano (Arábicas Suaves); Outros Arábicas Suaves; Brasileiro e Outros Arábicas; e Robustas. Em alguns casos, toma-se como referência a tabela Oficial Brasileira de Classificação do Café, elaborada pelo extinto Instituto Brasileiro do Café (IBC). Tal classificação engloba três aspectos (Anexo D):
A Nomenclatura Comum de Mercadorias (NCM) define o produto final, fazendo distinção entre sete códigos diferentes para produtos provenientes da torrefação e moagem de café, e quatro códigos de produtos referentes à fabricação de café solúvel (Anexo E). Entretanto, o nível de detalhamento nesse caso poderia ser maior. Não é observada, por exemplo, nenhuma menção ao termo light ou à diferenciação de cafés superiores, o que no mercado já é comum. Nesse sentido, algumas adequações seriam instrumento importante para o setor. O reconhecimento da superioridade e da valorização da qualidade do café no Brasil acaba por não ser estimulado nem oficialmente, o que pode entravar a diferenciação no mercado. Há ainda classificações mais recentes e específicas, que surgem de acordo com a inovação de produto, dando destaque a quesitos como qualidade e diferenciação. Como exemplo, cita-se a estabelecida em 2001 pela Resolução SAA-37, que fixa norma técnica para definir a qualidade do café torrado (tradicional, superior ou gourmet) (Anexo F). Como se observa, existe uma variedade de classificações para o café, que varia de acordo com o nível de processamento - elo da cadeia, e com a própria necessidade em termos de comercialização do produto. Para o café em grão, por exemplo, existem algumas classificações, e sua utilização decorre de necessidades de especificação para comercialização (como especificação de qualidade superior para alcance de melhores preços). No caso dos equipamentos utilizados nessa indústria, devido ao fato de a CNAE estabelecer o agrupamento das máquinas e equipamentos para as indústrias alimentar, de bebida e de fumo, são encontrados 24 códigos para definir o produto pela NCM. Entretanto, apenas parte desses códigos corresponde a equipamentos utilizados na indústria de bebida, e número menor ainda na indústria de café. |
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| 2.2. Importância do setor em termos quantitativos: | |
O setor cafeeiro no mundo tem grande relevância. Segundo a ICO (apud OBSERVATÓRIO SOCIAL, 2002), o valor movimentado com as vendas de café no varejo mundial em 2001 foi da ordem de US$ 70 bilhões, comparados com os cerca de US$ 30 bilhões em 1991. Destes US$ 70 bilhões, US$ 5,5 bilhões foram recebidos pelos países produtores, sendo o restante referente aos países importadores. Isso, embora pareça indicar grande capacidade de agregar valor no decorrer das etapas de produção, expressa também a ampla desigualdade nas relações comerciais entre os países. Ambos os fenômenos estão vinculados às estruturas e estratégias empresariais em ambos os tipos de países. O café também tem grande relevância para os países produtores em termos sociais. De acordo com a ICO, 125 milhões de pessoas no mundo, entre trabalhadores rurais e produtores, vivem da cafeicultura. No Brasil, por exemplo, 3,5 milhões de trabalhadores estão ocupados no setor cafeeiro; na Colômbia, 800 mil empregos diretos são gerados na área rural com essa cultura; no México, mais de 3 milhões de pessoas dependem do café. Na maioria dos países produtores, o café é responsável pela sustentação de uma fração expressiva da agricultura familiar. Os agricultores familiares são maioria nos países produtores da planta: no Brasil, correspondem a 2/3 das propriedades; na África com um todo, são maioria absoluta; na Venezuela, os pequenos agricultores são também maioria (ICO, 2003). Além disso, para muitos países produtores, como a Etiópia e Uganda, o café é responsável pela geração da maior parte das divisas com exportação. A produção mundial total de café verde foi de 116,6 milhões de sacas de 60 kg na safra de 2000/2001, de 111,8 milhões em 2001/2002, e a previsão para a safra 2002/2003 é de cerca de 125 milhões de sacas, representando um aumento percentual de 28% em 5 anos (FAS/USDA) 1. Desses 125 milhões, 54% devem ser provenientes da América do Sul - (a maior parte - 67% - proveniente do Brasil), 19% da Ásia e Oceania (principalmente do Vietnã), 14% da África (distribuídos principalmente entre Costa do Marfim, Guiné Equatorial e Uganda) e 13% da América do Norte e Central (majoritariamente México, Guatemala e Honduras) (FAS/USDA). Vale ressaltar que o mês de início da safra varia de acordo com o país, com a região, com as condições climáticas e com o tipo de café, podendo ir de abril a outubro de cada ano. Do lado do consumo, percebe-se que sua elevação não acompanha o aumento da produção. Segundo COUTINHO et al. (2002), enquanto a produção mundial de café em 2001 foi de 120 milhões de sacas, o consumo no mesmo período chegou a 107 milhões. Os maiores consumidores de café no mundo, em termos absolutos, são: Estados Unidos (19 milhões de sacas em 2000); Brasil (13 milhões de sacas em 2000); Alemanha (9 milhões de sacas em 2000) e Japão (7 milhões de sacas em 2000). Considerando o consumo per capita, em 2001, os maiores consumidores estão concentrados na Europa: Finlândia (11 kg/ano); Dinamarca (9,8 kg/ano); Noruega (9,5 kg/ano); Suécia (8,6 kg/ano); Áustria (7 kg/ano) e Alemanha (6,9 kg/ano) (FAS/USDA, 2003).
(1) ) Para informações completas sobre estatísticas do setor cafeeiro mundial (produção mundial, exportação, distribuição, países exportadores, países importadores, preços, estoque e consumo, entre outros), acessar o site www.fas.usda.gov/htp/tropical/2003/06-03/juntoc.htm . |
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| 2.3. Elementos Institucionais: | |
O setor cafeeiro mundial, até final da década de 80, sofria forte regulamentação decorrente da existência dos Acordos Internacionais do Café (AIC), no âmbito da ICO, instituídos a partir de 1962. Tais acordos tinham como principal objetivo implementar políticas de sustentação de preços no mercado mundial, utilizando principalmente do sistema de quotas para os países. O rompimento do AIC em 1989 foi decorrente da não aceitação do Brasil em reduzir sua quota, que já havia passado de 80% no início do século para 25% na década de 80 (COUTINHO et al., 2002). Desde então, o mercado mundial de café tem sido caracterizado por uma estrutura de competição, onde imperam as oscilações de preços derivadas dos excessos de produção. Os países produtores procuram garantir seus ganhos, seja via diminuição de custos, seja via melhoria da qualidade, seja ainda por meio de divulgação e promoção do produto. Para esse último recurso, cita-se como exemplo a Colômbia, que lançou forte campanha de marketing para destacar a qualidade diferenciada de seu café, a fim de conquistar mercados. Hoje, o objetivo do AIC de 2001 é não mais o de regular preços e quotas, mas sim de firmar o compromisso entre os países membros - exportadores e importadores - na busca pelo desenvolvimento sustentável dos países produtores, pela qualidade do produto, pelo aumento do consumo e pela divulgação de informações técnicas, tecnológicas e de pesquisa no geral. O Programa de Qualidade do Café, implementado pela ICO em outubro de 2002, através da resolução número 407, representa passo importante na busca e valorização da qualidade do café mundial. A existência de instituições e o papel delas é muito mais visível nos países produtores do que nos países importadores. Estes são, na maioria, países pobres ou em desenvolvimento, representantes do lado mais fraco da cadeia, e que, por isso, necessitam de algum tipo de proteção. Assim, observa-se nesses países a presença de entidades governamentais de caráter regulatório, cujos objetivos variam de país para país (controle de estoques, pesquisa e extensão, apoio técnico e financeiro aos produtores, indicação de preços, entre outros). No caso dos países importadores, que industrializam o café, as entidades existentes são representativas da indústria, mas não regulam o setor, limitando-se muitas vezes à assistência para o desenvolvimento do consumo. Dependendo do país de origem e do país importador, algumas barreiras tarifárias podem ser observadas. O café solúvel do Brasil, por exemplo, sofre taxação de 9% na União Européia (UE), enquanto os países da Comunidade Andina têm isenção tarifária como estímulo ao regime antidrogas. O café verde, entretanto, não sofre barreira tarifária no mercado mundial. O café não sofre nenhum tipo de barreira sanitária. Se processado e armazenado adequadamente, o café verde é um produto de longa estocagem, sendo muito mais sujeito a alterações químicas que biológicas, o que não traz danos para a saúde. No que diz respeito ao produto industrializado, após a torrefação, o café torna-se um produto estéril e ainda menos suscetível à degradação microbiológica. Embora não traga conseqüências de ordem sanitária, a deterioração química pode acarretar perda de qualidade do produto. Assim, a imposição de barreiras que considerem características químicas do produto passa a ser discutida: a UE, por exemplo, estuda a possibilidade de impor limite máximo da substância Ocratoxina-A em certos alimentos, dentre eles o café (SECEX, 1999). |
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| 3. Estrutura de Mercado, Padrão Competitivo e Estratégias: | |
| 3.1. O contexto internacional: | |
Historicamente, observa-se a existência de forte regulamentação nessa cadeia. Os AICs limitavam a participação dos países no comércio do produto por meio do sistema de quotas, em troca da garantia de preço. Isso estimulava a formação de uma estrutura rígida. Para os países produtores, era inviável aumentar a produção, pois se devia obedecer ao limite de quotas estabelecido; os países importadores, por sua vez, muitas vezes limitavam-se a estratégias de diminuição de custos, pois a fixação dos preços no mercado desestimulava a busca por qualidade. No início da década de 90, a desregulamentação do setor cafeeiro mundial, com a quebra do AIC, levou a uma reestruturação organizacional. Embora os países produtores ainda tenham reinstalado em 1993 o sistema de quotas, com a criação da Associação dos Países Produtores de Café (APPC), tal controle mostrou-se ineficiente e foi abolido em 2001. O problema reside no fato de que o café é um produto agrícola, uma cultura bianual, influenciada por fatores climáticos. Assim, sua oferta não é de fácil regulação: se, por um lado, pode-se restringir a produção em um dado período, por outro, não se pode prever a queda de oferta decorrente de problemas climáticos, o que, na ausência de estoques, desestabiliza o mercado. Diante da desregulamentação, o contexto internacional do mercado de café atualmente é marcado por um aumento da oferta, agravado no último ano pela crescente oferta brasileira (que, entre 2001 e 2002, expandiu seu parque cafeeiro em 8,6%) e vietnamita (cuja expansão do parque cafeeiro foi de 10,3% no mesmo período), e uma elevação do consumo em menores proporções (segundo COUTINHO et al. (2002), a taxas de 1% de crescimento da demanda mundial ao ano, nos últimos 10 anos). Essa situação vem desencadeando uma queda sucessiva de preços, a ponto do nível de preços no mercado internacional atingir os patamares de cem anos atrás (FAS/USDA, 2002). |
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| 3.1.1. Existem configurações nacionais típicas?: | |
Atualmente, a estrutura do mercado cafeeiro mundial pode ser descrita da seguinte maneira: Países exportadores De um total de mais de 70 países produtores de café (CIRAD, 2003), 57 exportam o produto (FAS/USDA, 2003), e 54 são membros da ICO. Caracterizam-se como países de clima quente, uma vez que a temperatura ideal para cultivo do café fica entre 19 e 22o C, para o Arábica, e 22 e 26o C para o Robusta. São principalmente exportadores do café em grão, verde ou torrado. A exportação de café solúvel pelos países produtores é baixa, se comparada à exportação de café em grão, e se restringe aos seguintes países: Brasil, Colômbia, Costa do Marfim, Equador, Guatemala, Índia, Indonésia, México, Nicarágua, Filipinas, Tailândia e Venezuela (ICO, 2003) (Anexo G). Apresentam industrialização do produto voltada para o abastecimento do mercado interno, muitas vezes com forte presença de multinacionais. Do total da oferta mundial dos países produtores no ano cafeeiro 2002/2003, previsto em pouco menos de 149 milhões de sacas (entre produção, estoques e importação), 84% equivale à produção no ano; 60,5% devem ser destinados à exportação, sendo, desse total, 6% na forma de café solúvel; 19% devem ser utilizados no consumo interno; e o restante (20,5%), retido em estoques. Nesse grupo de países, pelo menos nos mais desenvolvidos, como Brasil, Colômbia e México, caracteriza-se apoio institucional (governamental ou não) para pesquisa científica para desenvolvimento do produto, principalmente no que concerne a controle de pestes e doenças, desenvolvimento de novas linhagens, melhoria de sementes, melhoramento do solo e das técnicas de plantio, colheita e secagem, etc. Países importadores Total de 37 países (FAS/USDA), concentrados principalmente na Europa e Ásia, que adquirem o produto em suas várias formas (verde, torrado em grão ou processado). As empresas processadoras nesses países dividem-se entre nacionais e estrangeiras, caracterizando grande competição. Os maiores importadores são os Estados Unidos, a Alemanha, o Japão, a França e a Itália. Países re-exportadores De acordo com a ICO, correspondem a 21 países. São caracterizados por importadores de café em grão, que exportam o café adquirido, após ser industrializado e ter agregação de valor. A Alemanha é responsável pela maior parcela da produção re-exportada, seguida dos Estados Unidos, Bélgica, Singapura, Itália e França. Países consumidores De uma maneira geral, os maiores importadores de café são também os maiores consumidores, o que mostra que boa parte do café industrializado nesses países é destinada ao consumo interno. Exceção a essa regra é o Brasil, que é o maior exportador de café no mundo, e enquadra-se também dentre os maiores consumidores, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Assim, os maiores consumidores são: Estados Unidos, Brasil, Alemanha, Japão, França e Itália. Devido à presença da indústria de café nesses países, encontram-se aí também empresas produtoras de máquinas e equipamentos para essa indústria, com desenvolvimento de tecnologias de processo e conseqüente evolução do maquinário (como no caso da Alemanha). Dessa forma, pode-se traçar um panorama acerca da configuração do setor. Os países produtores são países em desenvolvimento, com exceção dos Estados Unidos, cuja pesquisa científica e tecnológica do produto está fundada em apoio institucional. Cita-se como exemplo o caso da Embrapa no Brasil. Possuem uma indústria processadora de café para atendimento do consumo interno e, em muitos casos, dependem fortemente da exportação do grão. Os países que importam o café, abastecem as indústrias torrefadora e solubilizadora internas, que produzem para o consumo doméstico (os maiores importadores são também os maiores consumidores) e para o mercado externo a eles (daí a existência de países re-exportadores). |
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| 3.1.2. Marcos do processo de internacionalização: | |
O fim da regulamentação a nível mundial permitiu uma série de mudanças no setor cafeeiro. A extinção do sistema de quotas permitiu aos países e, em última instância, aos produtores decidirem o quanto desejariam produzir. As oscilações de oferta - excesso e escassez - favorecem as alterações de preços, acirrando a concorrência. Ao mesmo tempo, a desregulamentação possibilitou maior poder de determinação da indústria. As empresas dos países importadores passaram a poder decidir o quanto comprar a um determinado preço, não sendo necessário observar preços convencionados antecipadamente. Essas mudanças podem ter representado um estímulo à inovação em decorrência do aumento da competição: os produtores agrícolas podem julgar interessante a melhoria da qualidade do produto, uma vez que, sem a fixação do preço, pode-se receber mais por um produto diferenciado; a indústria, com a possibilidade de barganhar com seus fornecedores, pode diminuir custos, além de ainda buscar o desenvolvimento de novos produtos (diferenciação) para conquistar mercados. Os fabricantes de máquinas e equipamentos, por sua vez, acompanhando esse novo dinamismo do mercado, devem se dedicar mais à busca de inovações de tecnologia de processo, a fim tanto de enxugar custos no decorrer da cadeia quanto de melhorar a qualidade do produto (final ou intermediário). |
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| 3.1.2.1. Comércio: | |
Nos últimos dez anos, observam-se expressivas mudanças no que diz respeito ao comércio do café em nível mundial. Primeiramente, porque houve a entrada e a intensificação da participação de países não tradicionais no fornecimento da matéria-prima (café verde). Este é o caso de muitos países africanos e asiáticos que, durante o período de forte regulamentação, ou não faziam parte dos AICs ou tinham sua participação muito limitada. O Vietnã, por exemplo, mais que dobou a sua produção de café nos últimos 5 anos, em detrimento de países da América do Sul e Central. O aumento da produção acarretou em queda de preços. Do lado do consumo, é válido ressaltar que não existe um enquadramento rígido dos países consumidores de café. Entretanto, pode-se afirmar que o tipo de café consumido em determinado local depende, além das variáveis já conhecidas (preço, qualidade, gosto), de questões culturais. No Brasil, por exemplo, o café solúvel tem pouca participação no mercado, em parte porque o processo de coar o café faz parte da cultura do país. Nos países consumidores tradicionais (Europa), a preferência é pelo café T&M, especialmente o café expresso. Exceção a essa regra é o Reino Unido, cujo consumo de solúvel atinge 90% do total (COUTINHO et al., 2002). Nos países onde a cultura do café está menos arraigada, a demanda por café solúvel, derivados do café e bebidas prontas é maior. A configuração do mercado consumidor tem sofrido alterações recentes. Por um lado, porque mais países passaram a fazer parte do rol de países importadores/consumidores de café. As mudanças políticas ocorridas nos países do Leste Europeu na década de 90 possibilitaram o desenvolvimento e a aceleração das vendas nesse novo mercado. O consumo de café nesses países tem crescido a taxas de 2,5% a.a., bastante mais elevada que a taxa de 1% observada no mundo. Merecem destaque a Rússia, a Polônia, a República Tcheca e a Hungria. Como um todo, padrões de consumo mundial de café estão mudando. O surgimento dos cafés especiais e gourmets tem possibilitado o aumento das vendas em mercados já saturados, como a Europa e os Estados Unidos. Estima-se que em 2010 o consumo de cafés especiais no mundo corresponderá a 15% da demanda total (SAES & FARINA, 1999). Além disso, a elaboração de produtos diferenciados derivados do café (bebidas geladas e substitutos do café, por exemplo) tem permitido à indústria conquistar novos mercados, atingindo por exemplo o público jovem. |
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| 3.1.2.2. Produção: | |
Do ponto de vista econômico, existem duas variedades principais de café produzidas no mundo: o Coffea Arábica (Café Arábica) e o Coffea Cannephora (Café Robusta). O primeiro é cultivado principalmente na América do Sul e Central, no Quênia e na Tanzânia. O segundo é cultivado no Vietnã, Brasil, Indonésia, Costa do Marfim e outros países da Ásia, África e Oceania. O arábica é um café de melhor qualidade (menos áspero e menos cafeínado), porém com custos de produção mais altos. Percebe-se, nos últimos anos, um aumento da participação do Robusta no total produzido mundialmente: a produção de Robusta equivalia a menos de 30% do total em 1990, passando para 46% em 2001. Isso decorre de alguns fatores:
No que diz respeito ao produto final, nos países desenvolvidos observa-se moderada concentração da participação das firmas líderes no mercado: o grau de concentração das 4 maiores C(4) é de 63, e o índice Herfindahl Hirshman (HH) é de 1299 (CANCKOREL, 2000, apud COUTINHO et al., 2002). Pelo índice HH, a baixa concentração é caracterizada por HH< 1000; a concentração moderada, 1000 Após a desregulamentação, as empresas viram-se em uma situação de necessidade de mudança. Por um lado, tinham a possibilidade de aumentar seus ganhos, tanto aumentando seu market-share quanto atingindo novos mercados, principalmente via diferenciação de produto. Por outro lado, foram forçadas a mudanças para sobreviverem nesse novo ambiente, mais competitivo. Como resultado, atualmente existe uma variedade muito grande de cafés produzidos e comercializados no varejo. As diferenças hoje não mais se limitam à escolha entre café torrado ou café solúvel. A desregulamentação e o conseqüente aumento da competição levaram as empresas a diferenciar o produto, tirando proveito da possibilidade de maiores ganhos. É relevante, nesse ponto, destacar a expansão das multinacionais para outros mercados que não os países desenvolvidos. Os mercados tradicionais encontram-se muitas vezes saturados, havendo espaço somente para o aumento das vendas de cafés especiais. Já os novos mercados permitem grande expansão das vendas, por motivos diversos. No Leste Europeu, por exemplo, o consumo de café foi impulsionado após a abertura política; em países da Ásia, como a China, a expansão do mercado é decorrente do aumento da renda, permitindo a substituição do chá pelo café; no caso do Brasil, não existe mais a percepção dos consumidores de que todos os cafés são iguais, abrindo espaço para a diferenciação via qualidade, estimulando o crescimento e surgimento de novos produtos. |
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| 3.1.3. Configuração internacional da cadeia / setor / segmento: | |
A desregulamentação e conseqüente aumento da concorrência, com modificação no seu padrão, acarreta a busca por estratégias que permitam maiores ganhos (aumento de market-share, alcance de novos mercados, diminuição de custos, diferenciação de produto, melhores técnicas de produção, entre outros). Nesse contexto, os países importadores de café parecem levar vantagens frente aos países produtores. Esses últimos possuem pouco poder de negociação no contexto internacional, condição agravada nos últimos anos com o excesso de oferta frente ao consumo menos crescente e o desencadeamento da crise do café (Osorio, 2002). O deságio do Robusta vis a vis o Arábica, decorrente do excesso de oferta e a possibilidade de sua maior utilização para a formação dos blends dão à indústria maiores margens para negociar. A demanda do Arábica passa a ser mais elástica a medida que este se torna substituível. Outra mudança importante que refletiu no desequilíbrio de poder entre as partes, como observa COUTINHO et al. (2002), foi o fato de que os estoques passaram do controle dos produtores para os consumidores. Os países importadores, que em 1990 detinham cerca de 25% dos estoques, em 2001 controlavam quase 50% do total de café estocado. Os Estados Unidos, por exemplo, aumentaram seu estoque de café verde de pouco mais de 2 milhões de sacas em janeiro de 1996, para quase 6 milhões em janeiro de 2003 (FAS/USDA). Para agravar a situação, existe o fato de que muitos países produtores têm no café a principal fonte de renda, o que os coloca em situação desprivilegiada diante da barganha de seus compradores. Como resultado, observa-se um empobrecimento de parcela significativa dos produtores de café em países do terceiro mundo. Isso tem atraído e estimulado a participação de organizações não-governamentais (ONGs) nessa questão, como é o caso da Oxfam International, que lançou em 2002 a campanha O que tem no seu café? para tratar das relações entre o comércio e a pobreza na setor cafeeiro. Do lado dos países consumidores, as empresas multinacionais têm visto no café oportunidades de crescimento. Como já mencionado anteriormente, a possibilidade de desenvolvimento de mercados ainda imaturos e principalmente de alcance de novos mercados leva a uma reestruturação do setor. O aumento de fusões e aquisições e a construção de novas plantas leva a uma maior concentração de mercado e possível formação de oligopólios. Além disso, estratégias de verticalização também são observadas. Como exemplo de integração vertical a montante tem-se o caso da italiana Segafredo Zanetti, sétimo maior grupo cafeeiro do mundo, que opera, além da torrefação, também na produção de café verde para exportação em uma fazenda no interior de Minas Gerais. Já a integração vertical a jusante é observada principalmente com a proliferação dos coffee shops, como é o caso da rede de lojas de café da empresa Café do Ponto no Brasil (hoje controlada pela Sara Lee Cafés do Brasil). De acordo com a Forbes, o mercado global da bebida café movimenta US$ 100 bilhões por ano (DOEBELE, 2003). Internacionalmente, existem importantes redes de lojas, das quais cita-se as americanas Starbucks (com 6.444 pontos no mundo) e Coffee Bean (com 222 lojas em 11 países), as italianas Illy, Segafredo Zanetti (350 pontos em 30 países), a alemã Tchibo (455 lojas) e a japonesa Doutor (1.218 lojas) (FORBES). Assim, num contexto internacional geral, percebe-se que a crise do café dos últimos anos tem conseqüências socioeconômicas mais sérias nos países produtores. Por outro lado, no caso dos países importadores, o que se percebe, ao contrário, é o crescimento das oportunidades de mercado, seja via expansão das vendas, seja por meio da introdução de novos produtos, e o interesse das multinacionais em se posicionar estrategicamente nesse setor, tanto nos países desenvolvidos quanto nos de terceiro mundo. |
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| 3.2. Fatores relevantes para a competitividade no setor: | |
A inserção e o desempenho dos produtores de café no mercado internacional, seja como matéria-prima ou como produto final, depende de uma série de fatores. De uma maneira geral, independentemente da forma como o produto é apresentado, custo e produtividade ainda são fatores relevantes para a competitividade no setor cafeeiro. Entretanto, outras variáveis devem ser consideradas, dependendo da apresentação do produto. Dividiu-se o produto em 3 grupos principais, cujos fatores de relevância para a competitividade serão expostos a seguir: Café verde Para a matéria-prima, o aumento da produtividade está relacionada ao uso intensivo de tecnologia na produção agrícola, como a fertirrigação e mecanização da lavoura. Nesse sentido, a escala de produção pode ter importância considerável, pois o custo da tecnologia pode ser diluído. Deve-se considerar ainda como fator importante para adoção de tecnologia na lavoura, além do tamanho da propriedade, as condições edafo-climáticas, uma vez que relevo muito irregular dificulta o uso de mecanização. É válido ressaltar que o fator preço tem maior relevância para o Robusta que para o Arábica, o que acaba refletindo no café solúvel. Mais recentemente, fatores relacionados à qualidade têm tido importância para a competitividade no mercado mundial. A qualidade do café está relacionada a atributos como variedade cultivada, clima e solo da região, tratos culturais, colheita e pós-colheita. O surgimento e o consumo crescente dos cafés especiais impulsionam a valorização desse item. Nesse aspecto, a coordenação e o marketing são fatores decisivos: na década passada, a Colômbia investiu na divulgação da qualidade de seu produto e conquistou espaço maior no mercado, ao passo que o Brasil não o fez e acabou sendo considerado mais como produtor de quantidade mas não tanto de qualidade (COUTINHO et al. 2002), a despeito de várias iniciativas (ainda incipientes). Além disso, a origem do café também tem sido destacada como importante para a competitividade no setor, sendo relevante tanto na venda para coffee shops (a rede norte-americana Starbucks Coffee Co. vincula a venda de seus produtos ao local de origem, como Minas Gerais por exemplo) quanto para o produto nas gôndolas (no Brasil, por exemplo, a empresa Café do Ponto, propriedade da corporação norte-americana Sara Lee, lançou em 2002 o café Aralto, cuja procedência é de regiões com 1000 metros de altitude da Mogiana e do Sul de Minas). Isso também depende esforços em publicidade. Café torrado e moído A indústria de T&M apresenta necessidade de tecnologia menos avançada que a de solúvel, e possibilidade de produção em menor escala, com plantas menos sofisticadas. Para o caso do café do tipo tradicional, o fator preço apresenta-se como um dos mais relevantes na determinação da competitividade. A oscilação de custos, decorrente das variações de preços da matéria-prima no mercado mundial, pode comprimir margens e acelerar a rotatividade no setor (COUTINHO et al., 2002). Para o caso dos cafés especiais, tanto a qualidade quanto o esforço em marketing para a divulgação da qualidade colocam-se como fatores importantes para a competitividade. A questão é que não basta que o café seja de qualidade superior para ser reconhecido. Muitas vezes, é necessário que se realize esforço em publicidade para divulgar a qualidade e descomoditizar o produto. As embalagens a vácuo viabilizaram as exportações e maior shelf life (tempo de prateleira) aos produtos. Café solúvel Por utilizar o Robusta, essa indústria tem no preço da matéria-prima um fator relevante de competitividade, implicando necessidade de custos baixos. Para a indústria brasileira esse fator é especialmente importante, pois o café Robusta no Brasil não é produzido com os menores custos do mundo, o que torna o produto e menos competitivo no exterior. A tecnologia é também fator de extrema importância nesse segmento, de modo que a necessidade de sofisticação das plantas implica concentração do setor. Tecnologias mais modernas permitem melhor qualidade do produto final, o que tem sido requerido pelos mercados consumidores tradicionais. Em compensação, é um produto que alcança preços muito mais altos no mercado. De acordo com a USDA (2003) o preço da libra (aproximadamente 450 gramas) de café torrado no varejo norte-americano fica em torno de US$ 3,00, enquanto que o café instantâneo é vendido por mais de US$ 12,00. Além de preço e tecnologia, canais de distribuição eficientes e adequação dos blends às preferências dos consumidores também são considerados fator de competitividade (COUTINHO et al., 2002). Por fim, o acesso a embalagens mais desenvolvidas permite a preservação da qualidade do produto, sendo este um fator significante. |
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| 3.3. O setor / segmento no Brasil: | |
O Brasil faz parte do contexto internacional da cadeia do café em diferentes aspectos. O café, que já representou mais de 80% das divisas do país, representa 2,4% do comércio exterior brasileiro, ficando atrás do complexo soja, açúcar e carne de frango (COUTINHO et al., 2002). Essa mudança, no entanto, não diminui a importância do país no setor, mundialmente. O país é o maior produtor de café do mundo, com tendência de expansão da produção, e é também um grande consumidor: o segundo maior do mundo em termos absolutos (ICO, 2003). Isso coloca o país na situação atípica de um país que pode ter a indústria cafeeira totalmente abastecida com matéria-prima interna. Além disso, ainda que em menor proporção, também somos exportadores de café industrializado, principalmente o solúvel. A tendência de amadurecimento do mercado consumidor aponta uma série de oportunidades para essa indústria. A seguir, expõe-se mais detalhadamente a configuração do setor no país e as questões relevantes para o melhor posicionamento do país no setor mundial. |
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| 3.3.1. Características e configurações do setor / segmento no país: | |
A história do café no Brasil em muito se funde com a própria história do país. Desde o início do século XVII, com a sua introdução no Brasil, a economia cafeeira vem enfrentando muitas adequações e dificuldades, que vão desde a transposição de produto para consumo local para produto de exportação, em fins do século XVIII, até a sua adaptação ao fim do Acordo Internacional do Café (AIC), em 1990, passando por fases de auges e crises entre essas duas datas. Cita-se, como exemplos, a adequação frente aos recursos disponíveis no Brasil, principalmente de mão-de-obra, o atendimento dos mercados europeu e norte-americano e a expansão produtiva e comercial, a influência da crise de 1929, a perda de espaço para a indústria, entre outros (Furtado, 1995). Nesses mais de dois séculos, a produção cafeeira no Brasil em muito mudou, mudanças essas em grande parte decorrentes de políticas macroeconômicas e setoriais. Dentre as políticas de regulação do setor, os AICs, iniciados em 1962, foram de considerável importância para o Brasil, uma vez que representavam uma política de sustentação de preços e conseqüente limitação da participação do Brasil no mercado mundial. Além disso, pode-se citar ainda como grandes responsáveis pelo curso de desenvolvimento do setor cafeeiro, até final da década de 80, o Instituto Brasileiro do Café (IBC), órgão nacional que orientava a política para o setor, e o tabelamento de preços no mercado nacional. Até então, diante dessa forte regulamentação, cabia à indústria de torrefação e moagem de café o papel de absorver o excedente da produção que não era exportado, de acordo com o AIC. Essa condição de usuária do excedente levava a indústria interna a comercializar um produto distante do que se podia caracterizar como especial, uma vez que o preço fixo induzia à homogeneização e muitas vezes à seleção adversa. Com relação a esse último ponto, vale dizer que, uma vez que o preço era fixo, não interessava aos produtores manter no país o café de boa qualidade; pelo contrário, estes eram estimulados a vender no mercado interno cafés de qualidade inferior, pois receberiam pelo produto o mesmo valor. A partir da década de 90, os três principais mecanismos de regulação do setor foram extintos: o AIC foi rompido pelo Brasil em 1989, o IBC foi extinto em 1990, e o tabelamento de preços foi abolido em 1992 (SAES, 1995). Esse novo contexto permitiu à indústria maior autonomia para tomar decisões, definir estratégias e determinar suas próprias políticas. Enfim, a desregulamentação, ao mesmo tempo em que trouxe como fator positivo para a indústria a liberdade para traçar seu caminho, embutiu nela características de concorrência de mercado, como a guerra de preços. Essas mudanças institucionais, que levaram à desregulamentação do setor cafeeiro no Brasil, propiciaram a emergência de um setor muito mais competitivo, ao dar espaço para os agentes dos vários elos da cadeia atuarem estrategicamente na melhoria da competitividade. Entretanto, isso não significa dizer que o apoio institucional (principalmente governamental) seja ausente ou desprezível atualmente. Políticas macroeconômicas e setoriais tem sido desenvolvidas pelo governo, especialmente no âmbito da agregação de valor ao produto e das exportações. Alguns exemplos podem ser destacados: por meio do Fundo Verde-Amarelo da FINEP, criou-se incentivo para projetos de incorporação tecnológica ao produto exportado, com recursos administrados pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (MDIC, 2002b); o BNDES concede crédito para empresas que desejam se instalar no exterior para processamento ou comercialização de café (AMARAL, 2002). O Programa Produtos Prioritários em Mercados Prioritários procura promover as exportações brasileiras de alguns produtos, dentre eles os cafés especiais, por meio de ações de incentivo, tais como disponibilização de banco de dados, contratação de consultores, promoção de workshops, entre outros (Anexo I). Atualmente, a cadeia do café no Brasil é formada pelos seguintes elos/agentes: Fornecedores de insumos, máquinas e equipamentos para a produção agrícola Nesse elo, destacam-se as sementes, os fertilizantes, os defensivos e as máquinas agrícolas, como os equipamentos de irrigação e colheitadeiras. O acesso aos equipamentos pode ocorrer por meio da aquisição individual (quando grande produtor), por meio dos maquinistas (prestadores de serviços), ou por intermédio das cooperativas, o que tem sido bastante comum no Brasil, já que 40% dos produtores agrícolas são cooperados (COUTINHO et al., 2002). Produção agrícola No Brasil existem cerca de 300 mil produtores rurais de café, em uma área média de 2,154 mil hectares de 2000/2002, produzindo a média de 36,5 milhões de sacas beneficiadas (MORICOCHI et al., 2003). O Brasil é um país com grande diversidade e complexidade do parque cafeeiro. Isso possibilita produzir tanto o café Robusta (2,49 milhões de sacas exportadas em 2001) quanto o Arábica (21,3 milhões de sacas exportadas em 2001), além de grande variedade de tipos de bebidas. De acordo com a ICO (2003), o país é o maior produtor de café no mundo, sendo previsto que responda por 41% da produção na safra 2002/2003, contra 31% em 2001/2002, e 29% em 2000/2001). Da produção brasileira, a maior parte é exportada (72% da safra 2002/2003; 61% em 2001/2002; 61,5% em 2000/2001) (ICO,2003). Após a colheita, iniciam-se as etapas de processamento de café. Elas consistem em duas: o beneficiamento e a industrialização do café. Beneficiamento Essa etapa, também chamada de descascamento, consiste na secagem e/ou despolpamento do café, ou seja, na transformação do fruto em café verde. Além disso, pode-se realizar ainda a retirada de outros materiais do café (separação de pedras e paus, por exemplo) e a separação do café de acordo com o tamanho dos grãos, para a melhor adequação à Classificação Oficial Brasileira (COB). A secagem pode ser feita pelo método seco (método natural, mais antigo) ou pelo método úmido (que origina um café mais homogêneo e de melhor qualidade) (ICO, 2003) Exportadores (traders) São os vendedores nacionais (intermediários), que adquirem o café do produtor agrícola e o vendem no mercado internacional. No processo de exportação do café verde e café torrado, observa-se um processo de integração vertical nesse ponto, nos dois sentidos. A montante, por duas vias: ou os exportadores, assim como os maquinistas e corretores, estão sendo substituídos pelas cooperativas que expandem sua atuação a jusante, ou estão diretamente ligados com a produção agrícola, como a Segafredo Zanetti no Brasil (que possui uma fazenda onde cultiva café e também opera uma exportadora). A jusante, a integração observada é caracterizada principalmente por grandes traders que se tornaram também processadores de café, como a Tristão, proprietária da indústria Real Café, no Espírito Santo. Indústria de torrefação e moagem É um outro destino do café verde: quando não exportado em grão, o café passa pelo seu segundo processamento, a industrialização, que se divide em torrado e moído e solúvel. Esse segmento é responsável pelo processamento de 13 milhões de sacas para consumo interno, principal foco da T&M no Brasil. Conta com a participação de mais de1500 empresas torrefadoras, das quais 511 membros da ABIC (em 2001). A indústria do café no Brasil empregou em 2001 75.200 pessoas, um aumento de 5% se comparado com 1998 (MDIC, 2003). O aumento anual da produtividade do trabalho nessa indústria foi de 20,8% em 2001, o que pode ser resultado do recente ambiente mais competitivo. Possuem à sua disposição indústria de bens de capital de tecnologia avançada, comparada às melhores do mundo. No entanto, como afirma MORICOCHI et al. (2003), a tecnologia é acessada por poucos no setor, principalmente devido à guerra de preços do produto final e à falta de preocupação com essas questões por parte das empresas familiares. São, na maioria, empresas de pequeno porte que disputam entre si no mercado via preço. Parcela muito pequena da produção de T&M é exportada, sendo de 40 mil sacas em 2001. Entretanto, percebe-se uma tendência de elevação, dado que em 1998 esse número foi 2,9 mil sacas e em 2000 cerca de 12 mil. Observa-se, recentemente, um mudança de tendência no mercado interno de café: a produção de cafés especiais (gourmets, orgânicos, espresso, de procedência, etc.) tem aumentado entre as multinacionais, que enxergam a oportunidade do consumo crescente, e entre empresas de porte menor, que não conseguem concorrer com preço devido à menor escala. Além de ser o segundo maior mercado do mundo, o fato de ser um mercado em amadurecimento e em expansão tem atraído a atenção das multinacionais, levando à concentração no setor. A participação do capital estrangeiro no setor é alta: a norte-americana Sara Lee (café Pilão, Café do Ponto e café Caboclo) detém 27,6% do mercado interno; a suíça Nestlé (Nescafé), 6,1%; a israelense Strauss Elite (Três Corações), 4,8%; e a alemã Melitta, 4% (Consumer Check Brazil 2000, apud COUTINHO et al., 2002). Indústria de solúvel Terceiro destino do café verde do país, a indústria de solúvel no Brasil é constituída de pequeno número de empresas e forte concentração de mercado. A tecnologia utilizada é avançada e, diferentemente da indústria de T&M, a adoção dos avanços tecnológicos é necessária. Trata-se de uma indústria voltada para a exportação, já que do total de café consumido internamente, menos de 5% corresponde a café solúvel (ABIC, 2003). A exportação brasileira de café solúvel foi de 2 milhões de sacas em 2000; 2,1 milhões em 2001 e 2,5 milhões de sacas em 2002, o que aponta uma tendência de crescimento. Consumidor final Existe uma tendência de elevação do consumo interno anual per capita de café, passando de 4,5 kg em 1998 para uma estimativa de 5,25 kg em 2003. O café pode ser adquirido via supermercados (que agrupam 74% das vendas de T&M no país em 2000), mercearias/quitandas/empórios (10% das vendas), bares/lanchonetes e restaurantes (4%) e cafeterias/lojas de conveniência (3%) (IEA, apud MORICOCHI et all, 2003). Com relação a esse último, o interesse em aumentar ganhos via diferenciação e a crescente importância dos cafés especiais no mercado nacional levaram ao surgimento e consolidação das lojas especializadas em vendas de café, os coffee shops. De organização já bastante estruturadas nos EUA e Europa, ainda poucas empresas atuam no Brasil nesse segmento, como a Café do Ponto, a Fran's Café e a Casa do Pão de Queijo, que serve o café da marca italiana Illy. O aumento da procura pelo café espresso no Brasil é grande impulsionador desse tipo de empresa: essas vendas passaram de um volume de 10 mil sacas/ano em 1994, para um total de 180 mil em 2000 (SEBRAE-MG, 2001). Ainda que incipiente, calcula-se que o consumo desse tipo de café no Brasil cresça a uma taxa de 20% a. a.; só na cidade de São Paulo, por exemplo, 250 milhões de xícaras de café espresso foram servidas em 2002, um aumento de 25% em relação ao ano anterior (SCARAMUZZO, 2003) Quanto ao mercado externo, percebe-se que a indústria no Brasil também está atenta ao surgimento de novos mercados: como exemplo, cita-se o caso da Nestlé, que iniciou a construção de uma nova planta em Araras/SP para produção de café solúvel para exportação, principalmente para a Rússia; outro exemplo é a iniciativa da Cooperativa dos Cafeicultores da Região do Espírito Santo do Pinhal (Coopinhal) de torrar e moer café na Rússia para diminuir o custo final do produto (DIÁRIO DO COMÉRCIO, 2003). Não só o simples aumento do consumo, mas a maior percepção da qualidade pelo consumidor brasileiro tem impulsionado o mercado de cafés especiais (determinado pela qualidade da bebida ou pelo processo de produção), inclusive nas gôndolas. |
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| 3.3.2. Agenda do setor no país e questões ausentes: | |
O setor cafeeiro no Brasil deve passar por uma série de adequações, no que concerne tanto a questões internas quanto externas. Do ponto de vista mundial, a crise cafeeira decorrente do excesso de oferta e da estagnação da demanda acarreta diversos problemas para os países produtores, inclusive o Brasil, que devem ser colocados em pauta. Primeiramente, a queda dos preços no mercado mundial leva à busca por custos menores, o que pode ser um fator favorável, mas que no Brasil tem se mostrado um problema, acarretando em descuido da qualidade e exploração do trabalho (OBSERVATÓRIO SOCIAL, 2002). Como solução a esses problemas são propostas políticas de incentivo à qualidade do café (inclusive com diferencial de preço), de diminuição da produção, principalmente do café de qualidade inferior, de estímulo ao consumo (e combate à idéia de que café é nocivo à saúde), bem como de proteção aos produtores, principalmente os pequenos, e melhoria das condições de trabalho no campo. Com relação à diferenciação do café, pode ser útil a realização de campanhas para educar o consumidor de que café não é tudo igual, idéia arraigada também devido ao tabelamento de preços que vigorou no país até início da década de 90. Isso se converteria em um estímulo à produção de cafés de melhor qualidade, tanto intrínseca, provenientes da produção agrícola, quanto provenientes do processo de industrialização. No entanto, existem evidentes limites a esta estratégia num país de renda média baixa, crescimento reduzido e desemprego e desocupação elevados. Além disso, o café de melhor qualidade não seria somente favorável ao consumo interno, mas também às exportações. Nesse sentido, há a necessidade não só de melhorar a qualidade do café brasileiro, divulgando a sua importância para os produtores, mas também de divulgar essa qualidade ao mercado. O café plantado no Brasil tem grande potencial de diferenciação por qualidade. Na verdade, já se produzem aqui muitos cafés de qualidade. O problema é que não se consegue preço por ele por dois motivos: primeiro porque o Brasil é considerado um fornecedor de quantidade e não de qualidade; além disso, porque ainda ocorre no país a mistura do café de diferentes qualidades, o que puxa o preço para baixo. Esses são problemas de falta de coordenação da cadeia que devem ser solucionados (COUTINHO et al., 2002). Exemplos como o da atuação da Illy no Brasil mostram que é possível resolver problemas de coordenação (distribuição e suprimento) e obter no Brasil café de qualidade suficiente para atender ao exigente mercado europeu (NEVES, SAES & REZENDE, 2002). Existem ainda outras questões envolvidas no desenvolvimento do setor, como as referentes a questões tarifárias e tributárias. Como observa COUTINHO et al. (2002), o Brasil é prejudicado tanto pela aplicação de barreiras tarifárias dos EUA e Europa sobre o café solúvel, que é menor ou inexistente para os concorrentes, quanto pelo regime tributário vigente no país, o que gera distorções na competitividade do país no contexto internacional. Com relação à questão tributária, observa-se uma política industrial invertida: o exportador de café em grão não paga ICMS; o exportador de café solúvel, sim. Isso acaba por desestimular a industrialização e a agregação de valor (MDIC, 2003). De acordo com as tendências observadas no setor cafeeiro nacional, algumas questões podem ser para o longo prazo. A entrada massiva de multinacionais no segmento de torrefação e moagem, em um primeiro momento, pode ser favorável: são empresas consolidadas que podem fazer uso de tecnologia avançada e tirar proveito de economias de escala e escopo, trazendo assim uma melhoria da qualidade e diversificação para o consumidor brasileiro. Posteriormente, isso pode acarretar resultados distintos: por um lado, a atuação dessas empresas pode promover o dinamismo tecnológico de todo o setor, inclusive impulsionando as empresas nacionais a adotarem práticas mais competitivas. Por outro lado, a consolidação do setor pode levar à eliminação das empresas de menor porte e a uma situação similar à observada nos países europeus de consumo tradicional: alto índice de concentração do setor, com poucas empresas dominando o mercado, aumento do poder de barganha frente aos seus fornecedores e exercício de altas margens de lucro, o que pode ser indesejável para o país. Assim, é necessário sim que o país modifique o seu papel como importante agente fornecedor de matéria-prima para o setor mundial, adequando-se às exigências atuais (de qualidade principalmente). É preciso ainda que a indústria busque atender aos novos padrões do mercado interno, fornecendo produtos diferenciados e de qualidade, e podendo assim obter retornos mais expressivos. Mas é importante também que questões de ordem sócio-econômica não sejam esquecidas, dentre elas: a observância das condições de trabalho no campo, o não abandono dos pequenos produtores, a consideração das relações de poder entre os agentes, e a defesa do consumidor. |
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| 4. Inserção Internacional: | |
Em relação ao fornecimento de matéria-prima, como já mencionado, o Brasil tem papel de destaque internacional. Entretanto, a entrada recente de outros países produtores e as exigências da indústria e, em última instância, do consumidor, levam à necessidade de maior dedicação à pesquisa, buscando inovações que melhorem a competitividade no âmbito mundial. Isso implica, por exemplo, melhor maquinário na produção agrícola, melhores técnicas, melhores sementes, entre outros. No que concerne à indústria, as multinacionais têm papel importante na evolução do setor no país. Produzem com alta tecnologia, podendo, indiretamente, até mesmo impulsionar o desenvolvimento tecnológico de seus fornecedores. A produção de café solúvel no Brasil é realizada utilizando tecnologia avançada e atende aos padrões internacionais. A não aceitação do produto pelo mercado europeu tradicional decorre da suposta falta de qualidade do café brasileiro, e não de problemas no processo produtivo. Além disso, a produção de cafés especiais pode favorecer a entrada do produto industrializado brasileiro em outros mercados, levando as empresas a se depararem com novos ambientes competitivos e a fazerem uso de novas estratégias, inclusive tecnológicas. |
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| 5. Mudanças recentes e estratégias das empresas: | |
Alguns fatores favorecem o amadurecimento do mercado brasileiro: a desregulamentação acirra a concorrência e estimula as preferências do consumidor; a estabilidade econômica e o aumento do nível de renda permitem o aumento do consumo de produtos com maior valor agregado; as exigências internacionais por qualidade favorecem a indústria interna; a possibilidade de entrada em novos mercados permite maior flexibilização para adequar o produto ao mercado (gosto, cultura, etc.). Esses e outros fatores implicam mudanças, tais como:
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| 6. Estudo Proposto: | |
O presente trabalho propõe avaliar qual o perfil tecnológico e as estratégias inovativas do setor cafeeiro no Brasil, considerando as atuais mudanças mundiais e nacionais, e averiguar qual o esforço de tecnologia desempenhado pelas empresas. Ou seja, diante das transformações recentes, qual o papel das empresas em adotar estratégias de inovações/mudança tecnológica, especificamente em dois níveis da cadeia: fabricante de máquinas e equipamentos para a indústria cafeeira, e indústria do café torrado e moído e solúvel. |
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| 6.1. Definição da amostra: critérios e justificativas: | |
A amostra definida para o setor cafeeiro é composta das seguintes empresas:
A escolha da amostra obedeceu a um conjunto de critérios. Inicialmente, tomou-se como base a lista das 500 maiores empresas, publicada pela Revista Exame - Melhores e Maiores, segundo suas vendas. Esta seleção foi realizada para os anos de 1999, 2000 e 2001. Dessas, foram selecionadas apenas dez (10) empresas, observando-se a evolução de suas participações nos mercados específicos e considerando-se as fusões, aquisições e as alterações das empresas no ranking. Posteriormente, foi realizada uma análise a partir de dados secundários, como dissertações, teses, artigos e trabalhos setoriais. Essa segunda análise foi importante para a confirmação da amostra e possíveis adequações às características do setor. A amostra foi confirmada por meio dos estudos de Competitividade no Agrobusiness Brasileiro, como o desenvolvido pelo PENSA/ IPEA em 1998 e o realizado pela UNICAMP-IE-NEIT/MDIC/MCT/FINEP em 2002. Por último, realizou-se uma pesquisa em jornais e artigos recentes disponíveis na Internet, para acompanhar o processo de fusões e aquisições, uma vez que nesses dois sub-setores tem havido intenso processo de reestruturação, ainda não captado pelos estudos setoriais que apresentam alguma defasagem no tempo de publicação. Percebeu-se que a evolução tecnológica na cadeia produtiva do café é caracterizada por inovações de processo, o que remete à necessidade de inclusão de fabricantes de máquinas e equipamentos para esse setor. Assim, no subsetor café, foram selecionados três tipos de empresas: sete empresas produtoras de café, solúvel e/ou torrado e moído (dentre as quais quatro com elevada participação no mercado nacional e três com destaque regional); duas empresas produtoras de máquinas e equipamentos de uso industrial no setor (torradores, moinhos, transportadores, etc.); e, por fim, uma cooperativa de cafeicultores. Essa última opera com a comercialização de um volume expressivo de café em grão e, em anos recentes, tem investido em processamento. Por ser uma cooperativa que está em processo de verticalização para frente, com características de governança diferenciadas, pode apresentar dinâmica tecnológica distinta. |
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| 6.2. Empresas-reserva: | |
Procurou-se utilizar, para a seleção das empresas-reserva, critério semelhante a adotado para a seleção da amostra. Assim, o grupo de empresas-reserva é composto das seguintes: Iguaçu Com. e Ind. de Café, Café Ituano, Café Utam, Real Café e Café Bom dia. |
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| 7. Considerações finais: | |
Pode-se perceber que o setor cafeeiro mundial vem passando por mudanças estruturais nos últimos dez anos, decorrentes principalmente de alterações institucionais. O Brasil, como ator de grande relevância nesse setor, também tem sofrido essas modificações, ainda mais por se tratar de um grande produtor, um grande consumidor e um mercado em expansão. A entrada de multinacionais e a visível concentração do setor no país também são reflexos dessas alterações, implicando, juntamente com a valorização da qualidade, importantes fatores de estímulo à inovação tecnológica. É esperado, assim, que a reestruturação do setor (produção, indústria e mercado) acarrete modificações do esforço tecnológico ao longo da cadeia, principalmente nas indústrias de equipamentos e processadora. |
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| 8. Referências: | |
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